Antes de colocar em produção Os abandonosseu idealizador, Kurt Sutter, explicou que o projeto nasceu do seu fascínio pelas origens agrárias da máfia, que apresentou em entrevista ao site Prazo final como resultado de “a marginalização das famílias camponesas sicilianas pelos proprietários de terras e pela aristocracia”. Munidos desta chave, podemos discernir melhor o projecto desta primeira temporada que por vezes temos a impressão de estar afogada na escalada de violência indescritível que os antagonistas infligem uns aos outros.
Para incorporá-los, Sutter escolheu dois ícones seriais. Gillian Anderson – que contribuiu, como agente do FBI especializada em paranormalidade, para o advento da era da conspiração (poucas séries tiveram tanto impacto na sensibilidade de uma nação como Arquivos X) – aqui passa para o outro lado da barreira, no papel de Constance Van Ness, uma aristocrata nova-iorquina exilada no sopé das Montanhas Rochosas, parceira da dinastia Vanderbilt na exploração de jazidas de prata que, inevitavelmente, rouba os agricultores.
Do lado oposto, Lena Headey, encarnação perfeita da maternidade equivocada em Jogos dos Tronosé confiada a personagem de Fiona Nolan, uma imigrante irlandesa mãe adotiva de quatro filhos de diversas origens, pronta a fazer tudo para preservar a sua terra e o seu clã. Num território que ainda não é um Estado por direito próprio, onde os primeiros ocupantes – os Cayuses – ainda não foram forçados a render-se, o seu confronto rapidamente toma um rumo sangrento.
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