Novas pesquisas realizadas no Parque Provincial dos Dinossauros (em francês, Parc provincial des Dinosaures), no Canadá (sul de Alberta), indicam que certas espécies de líquenes denunciam a presença de ossos fossilizados. Ao observá-los, os cientistas descobriram que eles se ligavam preferencialmente aos ossos dos dinossauros, e não às rochas circundantes. Graças aos seus tons alaranjados muito marcados, estes líquenes produzem assinaturas espectrais detectáveis por drones, permitindo identificar remotamente áreas ricas em fósseis.
Quando os líquenes traem ossos enterrados
Uma equipe internacional liderada por Brian Pickles, biólogo da Universidade de Reading (Reino Unido), realizou suas análises em três leitos fósseis no Parque Provincial dos Dinossauros, local famoso pelos numerosos fósseis de dinossauros que já forneceu. Cada vez, os paleontólogos observaram duas espécies de líquenes, Rusavskia elegans E Xanthomendoza trachyphylla, conhecido por favorecer substratos alcalinos, porosos e calcários, características típicas de ossos fossilizados.

Os líquenes colonizaram ossos de dinossauros. Créditos: Museu Real Tyrrell de Paleontologia
Para medir essa associação, os pesquisadores combinaram observações terrestres com imagens obtidas a 30 metros de altitude por drone, com resolução de 2,5 cm por pixel. As assinaturas ópticas dos líquenes destacam-se claramente do resto da paisagem porque apresentam baixa refletância no azul (400–500 nm) e forte refletância no infravermelho (800–1400 nm). Estas diferenças permitem automatizar a detecção de áreas colonizadas e, portanto, localizar potenciais fósseis.
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De acordo com os resultados publicados na revista Biologia Atualos líquenes são capazes de cobrir até 50% dos ossos expostos, em comparação com menos de 1% dos fragmentos rochosos vizinhos. Este método, explica Brian Pickles, “poderá revolucionar a prospecção paleontológica, ao tornar possível a detecção remota de depósitos em vastos territórios“.
Uma ponte ecológica entre o passado e o presente
Por que esses organismos preferem ossos a rochas? Para Brian Pickles, a resposta está na química e na textura do substrato: “acreditamos que os líquenes preferem ossos fossilizados porque a sua composição calcária e porosidade proporcionam as condições adequadas para o crescimento, com um pH favorável e talvez melhor acesso a certos nutrientes“Esta simbiose singular entre as formas de vida atuais e os restos de criaturas extintas ilustra, segundo ele, “uma ponte ecológica entre o passado e o presente“.

Os líquenes fixam-se preferencialmente em ossos de dinossauros. Crédito: Brian Pickles, Universidade de Reading
O estudo revela ainda que esta colonização é particularmente visível nos grandes ossos dos dinossauros ornitísquios, como os dos hadrossauros (dinossauros com bico de pato) ou os dos ceratopsianos (dinossauros com chifres). Uma tendência que Brian Pickles atribui ao viés de amostragem, e não à verdadeira preferência biológica: “Eu também observei esse fenômeno em ossos de terópodes, tartarugas e crocodilianos, mas os grandes ossos de ornitísquios são simplesmente muito mais numerosos.“.
Os investigadores planeiam agora testar os seus índices espectrais noutros sítios fósseis, incluindo os marinhos. A abordagem poderia ser adaptada a outros climas, desde que sejam identificados líquenes locais que apresentem propriedades semelhantes. “Será interessante ver se encontramos este tipo de associação noutros lugares, por exemplo em fósseis de mamíferos ou répteis marinhos. Tudo vai depender da geologia e das espécies de líquenes disponíveis“, especifica o pesquisador.