Há mais de um quarto de século, um western chocou a América ao destruir os mitos da conquista do Ocidente: redescobrir o “Soldier Bleu”, entre a violência e a verdade crua no centro de um massacre esquecido.
Lançado em 1970, Blue Soldier (ou O Soldado Azul) continua sendo um dos faroestes mais poderosos e controversos da história do cinema. Mais do que um simples filme sobre a conquista do Ocidente, destaca-se como um manifesto anti-guerra e uma homenagem aos povos nativos americanos, destruindo os mitos que glorificam os colonizadores. Sua violência bruta, especialmente durante a cena final, quase lhe rendeu uma infame classificação X nos Estados Unidos.
Ralph Nelson: um diretor pouco conhecido, mas essencial
Na época, Ralph Nelson era um cineasta eclético cujo nome hoje está quase esquecido. No entanto, ele assinou várias obras importantes. Em 1963, O Lírio dos Campos permitiu que Sidney Poitier ganhasse o Oscar de Melhor Ator, após o ator concordar em reduzir seu salário para participar do projeto. Em 1968 Nelson adaptou o comovente romance de ficção científica de Daniel Keyes Flores para Algernonsob o título Charly, dando a Cliff Robertson um Oscar por sua atuação magistral.
O racismo e a injustiça social permeiam toda a sua filmografia. Em 1975, ele já abordava o Apartheid em O Vento da Violência. Mas é com Soldado Azul que atingiu, para muitos, o auge de sua carreira, ao trazer para as telas um episódio histórico tão atroz quanto pouco conhecido: o massacre de Sand Creek.
Um faroeste que derruba os códigos
A trama acompanha uma coluna do exército americano escoltando um comboio de fundos, atacado por Cheyennes. Apenas um jovem soldado (Peter Strauss) e uma jovem (Candice Bergen) anteriormente capturada pelos índios sobrevivem. Juntos, eles devem chegar ao forte mais próximo, a vários dias de caminhada. Mas a cavalaria americana, alertada, partiu para atacar Sand Creek, um pacífico acampamento Cheyenne.
Assim como Little Big Man foi lançado no mesmo ano, Soldado Azul pertence ao que alguns historiadores do cinema chamam de “Vietnã Ocidental”: filmes das décadas de 1960 e 1970 que desconstroem o mito heróico da conquista do Ocidente e apresentam os brancos, e não os indianos, como os verdadeiros antagonistas.
Fotos da Embaixada
Sand Creek: horror histórico trazido para a tela
O filme traça o massacre de Sand Creek (29 de novembro de 1864, Colorado), onde 800 soldados americanos, sob as ordens do coronel John Chivington (chamado de coronel Iverson no filme), assassinaram mulheres, crianças e velhos, mutilaram e estupraram, antes de trazer escalpos como troféus. Um juiz militar descreverá este evento como “carnificina covarde executada com sangue frio, o suficiente para cobrir seus perpetradores com infâmia indelével, e com vergonha e indignação o rosto de cada americano.”
Ralf Nelson não apenas conta a história: mergulha o espectador no coração do horror. Para certas cenas, a produção trouxe amputados reais do México. A brutalidade dessas imagens forçou o corte de quase 20 minutos para evitar a classificação X nos Estados Unidos.
Fotos da Embaixada
Um paralelo com o Vietnã
Lançado durante a Guerra do Vietnã, Soldado Azul ressoa como uma crítica direta à violência militar americana. Em 1970, Nixon bombardeou a fronteira com o Camboja e, no ano seguinte, o tenente William Calley foi condenado pelo massacre de My Lai (350 a 500 civis mortos) antes de a sua sentença ser comutada. A raiva e a indignação face a estas atrocidades alimentaram o movimento pacifista americano e fizeram deste western um trabalho profundamente empenhado.
Um filme mal recebido, mas essencial
Após seu lançamento, Soldado Azul foi um fracasso comercial nos Estados Unidos. Candice Bergenatriz principal do filme e fervorosa ativista da causa indiana, explicará que o filme “era um espelho da vida e os americanos não aguentavam.”
Fotos da Embaixada
No entanto, esta obra única merece ser redescoberta.
Foi recentemente restaurado para 4K e continua disponível em VOD, oferecendo uma experiência cinematográfica comovente e necessária.