Zoom de vídeo na pupila de Hamlet. O laser de uma câmera afunda sob seu crânio para reprimir seu cérebro derretido. Ivo van Hove, diretor flamengo da peça de Shakespeare, traduzida por Frédéric Boyer e focada nos personagens principais do drama, não faz rodeios. O espetáculo que acontece no palco do Odéon-Théâtre de l’Europe emerge de uma psique atomizada pela demência. Basta dizer que a representação estará sujeita a curtos-circuitos, a estridências e convulsões, pois o que “está podre no estado da Dinamarca” também está na cabeça de Hamlet.
O príncipe está em péssimo estado. Seu pai morreu envenenado pelo irmão, Cláudio, que o sucedeu no trono e no leito conjugal (casando-se com Gertrudes). Informado desse assassinato pelo fantasma de seu pai, o órfão tenta desmascarar o culpado através de uma apresentação teatral. Em vão. Saia da arte e de suas impotências: Hamlet cai na violência.
É esta radicalização de uma juventude forçada a agir pelo cinismo dos mais velhos que Ivo van Hove pretende representar. Um projeto dramatúrgico claro no papel, mas pouco perceptível na realidade, apesar da presença envolvente e entusiasmada dos grandes nomes da Comédie-Française: Christophe Montien (Hamlet), Guillaume Gallienne (Claudius e o Espectro do Rei Morto), Denis Podalydès (Polonius), Loïc Corbery (Horatio), Florence Viala (Gertrude), Jean Chevalier (Laërte e Fortinbras) e Elissa Alloula (Ofélia).
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