
A França recebe na segunda-feira quase 600 especialistas em clima da ONU, o IPCC, para começarem a trabalhar no seu próximo relatório, num contexto de ruptura do consenso internacional sobre as alterações climáticas.
O relatório deverá ser publicado em 2028 ou 2029. Até lá, o trabalho do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas deverá ser dificultado pela posição hostil dos Estados Unidos.
O presidente Donald Trump resumiu tudo na ONU, em Nova Iorque, em setembro. Para ele, o combate às alterações climáticas “é a maior fraude alguma vez perpetrada contra o mundo” e “uma farsa inventada por pessoas com intenções maliciosas”.
A França, pelo contrário, procura salvar os compromissos assumidos pelos Estados durante o Acordo de Paris em 2015, para reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa.
A ministra francesa da Transição Ecológica, Monique Barbut, deverá abrir esta reunião de cinco dias na manhã de segunda-feira, no Tour Pleyel em Saint-Denis, perto de Paris.
– Formato não publicado –
O formato é único: reunir num mesmo local os “principais autores” deste relatório que se pretende ser uma referência em todo o mundo sobre a perturbação contínua do clima do planeta, uma ameaça muito direta à vida e aos ecossistemas.
O último relatório do IPCC, publicado em março de 2023, mostrou que o planeta estava a caminho de ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento em comparação com a chamada era pré-industrial no início da década de 2030. Desde então, os cientistas estimam que este limite máximo deverá ser reduzido antes de 2030.
Este relatório exige, em princípio, a unanimidade dos Estados.
“O IPCC funciona por consenso. E se algum país, seja ele qual for, se opõe ao relatório, bem, o relatório não pode ser aprovado. Cada país tem uma espécie de direito de veto”, explicou um climatologista do Grupo, Robert Vautard, na sexta-feira durante uma videoconferência com a imprensa.
“As declarações, por exemplo, da administração americana sobre a origem das alterações climáticas, o facto de ser uma farsa, se quiserem, ainda achamos bastante surpreendente”, continuou um funcionário do ministério francês.
“São pessoas que são professores universitários, que são os melhores cientistas do seu país, que são realmente pessoas muito reconhecidas e, portanto, todos têm doutoramentos, doutoramentos, etc.”, acrescentou.
– “Em crise” ou não? –
A primeira tensão visível entre os Estados diz respeito ao calendário.
O IPCC publica vários relatórios de avaliação científica a cada cinco a sete anos, fazendo um balanço do conhecimento e das questões relacionadas com as alterações climáticas.
Os membros da “Coligação para Alta Ambição” querem um calendário acelerado para que os principais relatórios do sétimo ciclo do IPCC estejam disponíveis durante a revisão global de 2028 planeada pelo Acordo de Paris. Esta coligação reúne muitos países ricos, incluindo os da União Europeia, e países vulneráveis do Sul.
Por outro lado, os países, especialmente os emergentes ou grandes produtores de combustíveis fósseis, consideram este prazo demasiado próximo e apelam para 2029.
As reuniões anteriores dos membros do IPCC este ano, a última das quais em Lima, no final de Outubro, mostraram o impasse nesta questão.
Esta linha divisória lembra aquela visível na conferência da ONU sobre o clima (COP30) em Belém, Brasil, concluída em 22 de novembro, sobre a menção ou não do objetivo de abandono dos combustíveis fósseis.
“Não, não creio que o IPCC esteja em crise”, disse o presidente do IPCC, o britânico Jim Skea, à AFP em março. O encontro de Saint-Denis é uma oportunidade para o provar.