
Este artigo vem da revista Les Dossiers de Sciences et Avenir n°224 de janeiro/março de 2026.
Quando surgiu do solo, no alvorecer do século XX, o mundo não conseguia acreditar: ao longo de mais de 13.000 metros quadrados, o palácio de Cnossos, no norte de Creta, reunia edifícios monumentais decorados com frescos multicoloridos, equipados com claraboias, sistemas de ventilação… e até banheiras!
É testemunho de uma civilização que atingiu, a partir da Idade do Bronze (3000-1200 a.C.), um grau de extrema sofisticação. Os vestígios escritos revelaram-se indecifráveis, o seu descobridor, o arqueólogo britânico Arthur Evans, associou estas centenas de salas e corredores ao Rei Minos, lendário patrocinador do labirinto destinado a aprisionar o Minotauro.
Uma interpretação que fracassou. O arqueólogo belga Jan Driessen, que escava o sítio Sissi no nordeste da ilha desde 2007, apresenta a seguinte hipótese: “Os edifícios de Cnossos, estruturados não em torno de uma sala do trono, mas de um pátio central, teriam servido como teatro para as reuniões de uma sociedade pouco hierárquica, que oferecia às mulheres um papel fundamental.” Um sistema matrilinear e matrilocal – em que a filiação passa pela mãe e onde a casa da noiva passa a ser a do casal – que teria assim compensado a ausência dos homens, que partiam para o Mediterrâneo para vender trigo, azeitonas ou vinho e comprar minérios.
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Uma civilização que desencadeou paixões
“Toda a iconografia, dos selos aos afrescos, confirma a primazia das mulheres.” Uma característica marcante principalmente nas representações sagradas. “Originalmente, os minóicos praticavam uma religião da natureza, deixando oferendas em promontórios ou em cavernas. Mas, a partir de 1650 a.C., surgiram uma ou mais divindades femininas, as topless, brandindo cobras.” Por volta de 1450 AC. AC, esta figura será suplantada por Zeus – sinal do apagamento, em benefício dos micênicos, de uma cultura abalada pela erupção vulcânica de Santorini, em 1530 AC. AD, e que se encontra minado pelo crescente elitismo.
Desde a sua descoberta, a civilização minóica desencadeou paixões. Os nazistas denegriram o seu refinamento, os hippies elogiaram o seu pacifismo… e os visitantes afluem para admirar os seus palácios. Em junho de 2024, a descoberta, no canteiro de obras do novo aeroporto cretense, de um edifício semelhante a um labirinto de 3.700 anos reacendeu uma esperança louca: a de ter encontrado o labirinto do mítico Minotauro…
Por Faustine Prévot