
Os líderes europeus prometeram na segunda-feira em Hamburgo acelerar a sua cooperação para produzir energia eólica no Mar do Norte, a fim de garantir o abastecimento de energia do continente e excluir qualquer retorno ao gás russo.
Esta terceira cimeira sobre cooperação energética e de segurança na região do Mar do Norte realiza-se num contexto diplomático de tensões, devido à ameaça russa e às ambições americanas para a Gronelândia, também no centro dos debates.
Nesta área estratégica, os europeus querem acelerar a implantação da energia eólica offshore, um desafio industrial colossal para a descarbonização do continente.
Os ministros da Energia da Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Islândia, Irlanda, Luxemburgo, Holanda e Noruega assinaram na segunda-feira uma declaração conjunta para criar “o maior centro de energia limpa do mundo”.
Durante a segunda edição desta cimeira em 2023, os países participantes concordaram em desenvolver até 300 gigawatts de capacidade energética no Mar do Norte até 2050, com uma meta intermédia de 120 GW para 2030, até agora no caminho certo para ser cumprida, de acordo com especialistas do setor.
– “Segurança de abastecimento” –
O novo acordo prevê que a Alemanha, a Noruega, a França, a Dinamarca e o Reino Unido lancem uma “frota sem precedentes” de projetos eólicos offshore, representando uma capacidade total de 100 GW, de acordo com um comunicado separado do Departamento de Energia britânico que não especifica o calendário.
Esta produção equivale às necessidades de eletricidade de quase 100 milhões de lares.
O acordo deve permitir a “resiliência” e a “segurança dos abastecimentos” na Europa, disse Katherina Reiche, Ministério da Economia e Energia alemão.
“A cimeira superou as expectativas em termos de anúncios políticos” e industriais, garante à AFP Nick Mabey, diretor do think tank climático E3G.
Mas agora espera acção, porque até agora deplora “uma abordagem muito nacional” na Europa em relação à energia eólica offshore e à cooperação “que não ocorre” entre os Ministérios da Defesa e da Energia.
A Alemanha e a Dinamarca também chegaram a acordo sobre um projeto denominado “Ilha de Energia de Bornholm”, que visa tornar a ilha de Bornholm, localizada no Mar Báltico, um centro nevrálgico para a energia eólica offshore.
A energia eólica ganhou importância com a decisão dos europeus, após a invasão da Ucrânia em 2022, de não dependerem mais do gás russo, apesar do aumento dos preços da energia que isso provocou.
“Estamos a enviar um sinal muito claro à Rússia: não permitiremos mais que utilizem energia contra nós”, afirmou Dan Jørgensen, Comissário Europeu da Energia.
“Esta ameaça do Oriente ainda está presente. A isto acrescenta-se um desafio do Ocidente, com um parceiro americano que pode ser imprevisível”, disse à AFP o ministro da Economia francês, Roland Lescure, enquanto muitos países, incluindo a Alemanha, obtêm os seus fornecimentos de gás liquefeito dos Estados Unidos.
– Unidade em torno da Groenlândia –
Os países ribeirinhos do Mar do Norte também querem oferecer melhor visibilidade aos industriais, enquanto as operações de sabotagem e espionagem na região foram atribuídas à Rússia.
A NATO também esteve representada na cimeira, no meio de um recrudescimento das tensões em torno das infra-estruturas energéticas no Mar do Norte e no Mar Báltico.
“Desde a nossa criação, investimos também na segurança”, mas o tema está a ganhar importância, disse à AFP Manon Van Beek, diretor-geral da holandesa TenneT, peso pesado nas redes de transporte elétrico.
Ela garante “estreita cooperação” com a polícia e a OTAN.
O futuro da Gronelândia, cobiçado por Washington, não estava oficialmente na agenda da cimeira.
Mas o assunto estava presente, mesmo que em Davos Donald Trump tenha retirado a sua ameaça de tomar a Gronelândia pela força.
“A Dinamarca e o povo da Gronelândia podem contar com a nossa solidariedade”, afirmou o chanceler alemão Friedrich Merz.
“A Europa demonstrou força e unidade nas últimas semanas”, disse a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen.
E acrescentou: “Estou grato por isso, mas também devo dizer que é a única forma de avançar”.