SSe certas peças do guarda-roupa masculino, como calças curtas, tops, calças harém ou mesmo meias desportivas brancas, são objecto de uma denigração que beira o assédio, outras beneficiam de uma surpreendente complacência, para não dizer de uma infeliz impunidade. É o caso, por exemplo, do colete-fato, cuja presença no espaço público certamente não é invasiva, mas cresce perigosamente.
Isto parece ter beneficiado, durante vários anos, da influência da bem-sucedida série britânica Peaky Blinders, cujos protagonistas aparecem sistematicamente em três peças, um colete inserido entre o paletó e a camisa de popeline. Apertando a cintura para melhor acentuar a constituição, esse colete tem, assim como as têmporas raspadas ou os bonés chatos, uma função precisa: reforça a virilidade testosterona dos personagens.
Se esse visual pode – possivelmente – apresentar certo apelo na tela, adotá-lo na vida se mostra extremamente perigoso. Assim, fora de função (um pensamento para os empregados de mesa) ou de ocasião especial (casamento, baptizado, aniversário, etc.), o colete sublinha, na realidade, uma postura artificialmente sofisticada e até, muitas vezes, um complexo físico volumoso. Observamos, de facto, que serve regularmente como uma bainha destinada a conter uma barriga sem suporte.
Mas o pior aparece quando a jaqueta cai. Além de revelar problemas de corte (o colete deve parar na cintura, nunca descer) e de abotoamento (o último botão nunca deve ser fechado), usá-lo ao ar livre parece encorajar seus seguidores no caminho da masculinidade desinibida. Assim, não é incomum que arregacem as mangas das camisas para mostrar os bíceps salientes e tatuados. Acontece até que as pessoas mais confiantes dispensam totalmente a camisa e ficam nuas sob o tecido do colete, dando-lhe a aparência da tão difamada regata. QED.