Será que o Estado francês e os fabricantes de leite infantil fizeram o suficiente para proteger a saúde dos bebés durante a onda de recolhas no início do ano? Uma missão, reunindo vários deputados, inicia nesta terça-feira seus trabalhos sobre o tema.
O objetivo desta missão “flash” será avaliar “a responsabilidade das multinacionais” e “a estratégia do Estado” para as conclusões entregues até junho, disse à AFP a deputada Mathilde Hignet (LFI-NFP), que será co-relatora com Michel Lauzzana (Renaissance).
A questão do leite infantil começou em Dezembro com a recolha de caixas por parte da Nestlé, mas ganhou impulso no início de 2026, quando o gigante alimentar iniciou recolhas muito maiores em cerca de sessenta países. Em questão, a presença potencial de cereulide, uma toxina que pode causar vômitos perigosos em crianças.
Rapidamente, uma cascata de recalls semelhantes ocorreu em todo o mundo por grandes nomes como Danone ou Lactalis, mas também por pequenos players. Ponto comum, um ingrediente – um óleo rico em ácido araquidônico – fornecido pelo mesmo subcontratado chinês.
As consequências para a saúde permanecem, até à data, incertas. Só na Bélgica, foi estabelecida uma ligação entre o consumo de leite contaminado e a hospitalização de vários bebés, todos os quais tiveram alta após sintomas ligeiros.
Em França, as autoridades de saúde estão a investigar duas mortes de bebés que consumiram leite recolhido – num terceiro caso fatal, a responsabilidade do leite foi descartada no início de Março – mas até ao momento não foi estabelecida nenhuma ligação de causa e efeito.
Por outro lado, a cereulide foi detectada nas fezes de um bebê hospitalizado na França. Segundo as autoridades de saúde, isto não é suficiente para provar uma ligação, um ponto de vista diferente dos seus homólogos belgas, para quem a presença da toxina fornece provas suficientes.
– Frentes judiciais –

Neste contexto, a missão parlamentar, criada por iniciativa da Comissão dos Assuntos Sociais, vai estudar o mérito de diversas acusações feitas contra o Estado e os industriais por parte de famílias e associações.
Existem essencialmente três queixas. Em primeiro lugar, os fabricantes teriam demorado demasiado tempo a iniciar as recolhas e o Estado teria confiado excessivamente na sua boa vontade. As autoridades, no entanto, lembraram que este era o procedimento habitual neste caso.
Em segundo lugar, a França é responsabilizada pela insuficiência de capacidades analíticas. As amostras colhidas em bebés franceses tiveram, de facto, de ser enviadas para a Bélgica, capazes de detectar cereulide em limiares considerados suspeitos.
Finalmente, as críticas dizem respeito às recomendações feitas aos cuidadores, particularmente nos hospitais, para considerarem o envenenamento por cereulide. Segundo várias famílias e associações, chegaram tarde e obedeceram a critérios demasiado amplos.
De momento, o Conselho de Estado, contactado em processo sumário por um grupo de famílias – Intox’Alim – decidiu a favor do Estado, considerando que a sua política não prejudicou a vida e a saúde dos bebés.
Mas outras frentes jurídicas estão abertas, com múltiplas denúncias de associações e ONG, bem como investigações abertas pelo Ministério Público sobre mortes infantis.
A esta vertente judicial acrescenta-se agora a missão flash. Os seus dois co-pilotos realizarão audiências, inteiramente à porta fechada – este é “o princípio” deste tipo de trabalho, onde apenas o relatório final é “público”, aponta um colega de Hignet.
As audiências começam terça-feira com as de associações e representantes das famílias. Seguir-se-ão na quarta-feira os representantes do Estado – Direções-Gerais da Saúde (DGS) e da Alimentação (DGAL) bem como a Agência de Segurança Sanitária (ANSES) responsável pela realização das análises – e na quinta-feira várias agências da União Europeia (UE).
A vez dos fabricantes, entre os quais apenas a Nestlé comunicou publicamente até agora uma lista exaustiva dos produtos em causa, chegará na terça-feira, 31, com, já confirmados, Nestlé, Danone, Lactalis e Vitagermine.