
Entre “Homem Elefante” e “Veludo Azul”, que imporia o seu estilo, David Lynch havia assinado uma adaptação de “Duna”, pouco amada nem por ele mesmo, mas que merece ser vista. E isso é bom: estreia nos cinemas no dia 13 de maio.
Quando David Lynch nos deixou, em 15 de janeiro de 2025, muitos fãs de cinema ao redor do mundo lamentaram seu falecimento e relembraram seus favoritos na filmografia do diretor com seu estilo único. Muholland Drive tem, obviamente, surgido com muita frequência, tal como Twin Peaks (a série e a sua prequela em formato cinematográfico), Lost Highway, Elephant Man ou Sailor and Lula, mas há muito poucas menções a Inland Empire, a sua última longa-metragem, e menos ainda à sua adaptação de Duna, lançada nos nossos cinemas em Fevereiro de 1985. Talvez porque ele próprio não o tivesse mencionado, dado quem o renegou.
Desde a sua publicação em 1965, o romance de Frank Herbert atraiu a atenção de Hollywood, e Alejandro Jodorowsky foi o primeiro a realmente trabalhar arduamente na sua adaptação, que, no entanto, deu origem a um rico documentário. Somente na primeira metade dos anos 80 um projeto se concretizou: determinado a aproveitar o sucesso de Star Wars, o produtor Dino de Laurentiis conseguiu convencer David Lynch, que vinha do sucesso de Homem Elefante e acabava de recusar… O retorno dos Jedi.
Seduzido pelo mundo de Frank Herbert e com um orçamento de 40 milhões de dólares, o cineasta confiou o papel principal ao desconhecido Kyle MacLachlan e ofereceu os serviços de Sting, num papel secundário, e do grupo Toto para a banda sonora. Mas o sonho rapidamente se transforma em pesadelo nos estúdios de Churubusco (México), entre técnicos não qualificados, doenças, avarias e outras demissões por contas não pagas.
73 minutos cortados durante a edição
David Lynch ainda concluiu o projeto com um primeiro corte de 3h30 do qual foram retirados setenta e três minutos para permitir que um filme de 2h17 chegasse aos cinemas de todo o mundo. Sendo já muito complicado querer condensar tal monumento numa única obra, o resultado é, sem surpresa, desequilibrado e demasiado rápido na sua segunda metade, centrada na ascensão de Paul Atréides. Tanto é que o cineasta não demora a negar o que considerava ser “seu maior fracasso”especificando que não tinha controle artístico total e muito menos corte final.
Muito criticado pela imprensa e pelo público aquando do seu lançamento, este Duna está, no entanto, longe de ser vergonhoso, e ainda tem um certo encanto, uma estranheza e até uma loucura que, para muitos, faltam nos filmes de Denis Villeneuve, que conseguiu com sucesso oferecer uma segunda oportunidade à obra de Frank Herbert com uma adaptação em duas partes, que se seguirá no próximo mês de Dezembro com uma terceira parte inspirada no romance “O Messias de Duna”.
Um pouco de Arrakis em Cannes?
Obviamente, não podemos sonhar como seria o filme se não tivesse sido reduzido a este ponto, pois o que resta não carece de qualidade nem de estilo, apesar de um evidente desequilíbrio, mesmo para quem não leu o material básico. E é por isso que merece muito mais do que sugere sua produção caótica, daí a boa notícia representada pelo anúncio deste relançamento em nossos cinemas, em versão 4k restaurada, no dia 13 de maio.
Porque será uma oportunidade de (re)vê-lo e (re)dar-lhe uma oportunidade nas melhores condições. E até nos perguntamos se alguns não terão a oportunidade de (re)descobri-lo na Croisette, tendo o Festival de Cannes adquirido nos últimos anos, poucas horas antes da sua abertura, o hábito de exibir um clássico restaurado numa das suas salas. Depois de Napoleão de Abel Gance e de A Corrida do Ouro de Charles Chaplin, pode muito bem acontecer que o felizardo de 2026 nos leve a Arrakis.
Todos os dias, o AlloCiné contém mais de 40 artigos que cobrem notícias de cinema e séries, entrevistas, recomendações de streaming, anedotas inusitadas e anedotas cinéfilas sobre seus filmes e séries favoritos. Assine o AlloCiné no Google Discoveré a garantia de explorar diariamente as riquezas de um site pensado por entusiastas para entusiastas.