Como um “simples” decorador de cenários vê a sua notoriedade colocada em órbita, e até por acidente, graças ao génio de David Lynch: este é o destino extraordinário de Frank Silva, vulgo o terrível BOB da série de culto “Twin Peaks”.

“Quanto mais bem-sucedido for o vilão, mais bem-sucedido será o filme.” Estas foram as palavras de um certo Alfred Hitchcock. Palavras de um especialista e verdadeiro ourives no assunto; ele que realmente deixou alguns dos vilões mais memoráveis ​​já vistos no cinema.

Muitos atores e atrizes preferem interpretar um personagem verdadeiramente malvado, extremo, demoníaco, psicótico e tortuoso (lista não exaustiva, riscar quando aplicável…), muitas vezes considerado mais interessante de interpretar. E deixar para trás composições particularmente memoráveis ​​e arrepiantes.

Mas o mundo do cinema, felizmente, não tem a prerrogativa dessas encarnações na tela. O universo das séries também. Em 1990, enquanto os espectadores tremiam de medo nos cinemas com A Escada de Jacob, Aracnofobia, Tremores ou as aventuras sangrentas de Chucky, o Boneco de Sangue, o sangue dos espectadores foi congelado por um personagem que ainda não terminou de nos assombrar 36 anos depois: BOB, a entidade maligna da lendária série Twin Peaks de David Lynch.

Personagem diabólico e onírico no centro da série, BOB interferiu em nossos pesadelos desde o primeiro episódio. A aparência deste homem de cabelos compridos e sorriso carnívoro fica gravada no imaginário coletivo dos telespectadores graças à visão assustadora que Lynch dá deste personagem: a de um homem subindo em um sofá como se estivesse correndo em nossa direção.

“De repente imaginei Frank nesta sala”

E pensar que quem encarna esta entidade diabólica e sobrenatural era originalmente apenas um “simples” decorador de cenários. Na verdade, Frank Silva estava trabalhando no episódio piloto da série quando foi acidentalmente filmado por Lynch.

O cineasta contou diversas vezes esta história, nomeadamente nesta entrevista datada de 2007, A Fatia de Lynchonde a pessoa fala com o produtor John Wentworth e os atores Mädchen Amick e Kyle MacLachlan. Ele afirma ter ouvido a voz desencarnada de uma mulher atrás dele enquanto trabalhava no chão da casa de Laura Palmer.

Silva, que preparava a sala para as filmagens, aparentemente acabou de colocar uma cômoda perto da porta. A mulher, na verdade integrante da equipe de produção, brincou dizendo que Silva não deveria se trancar no quarto, e Lynch teve uma inspiração. “De repente imaginei Frank nesta sala”diz ele, enfatizando que a palavra “trancado” havia estimulado sua imaginação.

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“Encontrei Frank. Perguntei a ele: ‘Frank, você é ator?’ E como todo mundo em Hollywood, ele disse: ‘Sim, David, estou.’ Então eu disse a ele: ‘Você vai estar nesta cena’, e ele me perguntou: ‘O que devo fazer?’ Eu disse: ‘Não sei’.

Então filmamos essas fotos panorâmicas, apenas nos movendo pela sala. Acabamos de varrer a sala, não havia ninguém lá. Então eu disse: “Frank, agora desça e segure a ponta da cama assim [en mimant le geste d’attraper le cadre du lit] e fique quieto. “Fizemos um plano com ele lá.”

E foi assim que nasceu a primeira aparição do BOB, aqui está ele de novo…

Este momento mudou completamente o rumo da série. “No início, Bob não existia” explicou Lynch. Mas depois de descobrir Silva e pedir-lhe para filmar esta cena cult onde Bob aparece aos pés da cama de Laura Palmer, Lynch teve a brilhante intuição de que precisava de um rosto para encarnar o mal absoluto, que até então decidira deixar como uma entidade desconhecida, imaterial e abstrata.

“Estou lisonjeado, é um elogio”

No mundo etéreo de David Lynch, nada é explicado com clareza. As terríveis aparições de BOB manifestam-se numa espécie de estranheza perturbadora, ao tomarem posse das mentes de personagens que vivem numa pequena cidade que parece ser tranquila e monótona.

Se é tão aterrador, é porque também funciona, em última análise, como um catalisador, um revelador, dos atos vis que os homens podem demonstrar, e particularmente os indivíduos que são possuídos por ele. Um mal inextinguível e, acima de tudo, perfeitamente imparável.

“Estou lisonjeado, é um elogio” disse Frank Silva sobre a reação das pessoas ao ver seu rosto ficar famoso por Lynch, em entrevista concedida em 1993. Infelizmente, ele não teve muito tempo para saborear sua repentina notoriedade: morreu dois anos depois, com apenas 44 anos. Nós o imaginamos encantado, lá de cima, ao ver que continua, 36 anos depois, uma das figuras mais aterrorizantes já vistas na telinha.

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