O consumo de eletricidade em França manteve-se estável no ano passado, abaixo dos níveis anteriores à crise sanitária e à crise energética, o que confirma o atraso do país na transição energética e na saída dos combustíveis fósseis, anunciou esta quarta-feira a RTE.
A produção de eletricidade na França continental, por seu lado, continuou a aumentar, 1,5% em 2025, para 547,5 terrawatts-hora (TWh), de acordo com o relatório de eletricidade de 2025 do gestor da rede de alta tensão.
“Em 2025, o consumo de eletricidade na França continental manteve-se estável em relação ao ano anterior, atingindo 451 TWh (+0,4% face a 2024)”, indica a RTE.
Continua “muito atrás” – em cerca de 6% – em relação ao período 2014-2019, anterior à pandemia de Covid-19 e à crise energética que se seguiu à guerra na Ucrânia, especifica.
“O consumo de eletricidade não está aumentando”, comenta à AFP Olivier Houvenagel, vice-diretor de economia responsável pelos estudos prospectivos da RTE. “Acima de tudo, vemos que a participação da eletricidade no consumo final de energia e, portanto, a taxa de eletrificação do país, também não aumentou”, acrescenta.
Os combustíveis fósseis continuam a predominar no mix energético francês e representaram 56% do consumo final de energia do país em 2024, enquanto a eletricidade representou apenas 27%, argumenta a RTE.
O gestor, no entanto, observa que a dinâmica descendente do consumo de eletricidade “parou a partir de 2024”.
A eletrificação dos usos, ou seja, a transição para a eletricidade nos setores dependentes dos combustíveis fósseis (gás, petróleo), “aparece por trás das trajetórias necessárias para atingir os objetivos climáticos da França”, nota o gestor.

Estes setores são os transportes com veículos elétricos, a construção com bombas de calor ou a indústria com fornos elétricos.
O governo, que fez desta transição uma prioridade, deve apresentar um plano de eletrificação da economia “já na primavera”, segundo o ministro da Economia e Finanças, Roland Lescure.
– Abundância de eletricidade de baixo carbono –
Este movimento é tanto mais relevante quanto a produção de eletricidade em França ultrapassou o nível de 2019, principalmente graças ao restabelecimento da disponibilidade de centrais nucleares e à progressão da produção nos setores solar e eólico, especialmente no mar.

Além disso, a eletricidade é largamente descarbonizada em França, com um volume de produção de 95,2% de baixo carbono (nuclear e renovável), um nível “histórico”, segundo a RTE.
A produção fóssil continuou assim a diminuir e o seu nível “foi o mais baixo observado em quase 75 anos”, segundo a RTE.
“A abundância da produção francesa de eletricidade de baixo carbono coloca o país numa posição muito favorável para descarbonizar rapidamente e reduzir a sua dependência dos combustíveis fósseis, que ainda representam quase 60% do seu consumo total de energia”, estima.
O “teor de carbono”, ou pegada de carbono, da França é um dos mais baixos da Europa, o segundo depois da Noruega, sublinha Olivier Houvenagel. “O desafio agora é realmente conseguir descarbonizar outros usos”, continua.
Deste ponto de vista, a França tem uma vantagem em comparação com “outros países cujo +mix+ eléctrico ainda se baseia em grande parte na produção fóssil”.
Outra vantagem é que França é um exportador líquido de eletricidade na Europa e a competitividade da sua produção permitiu-lhe registar um novo recorde de exportação em 2025, lembra o gestor.
Representaram 92,3 TWh em 2025, o que é “comparável ao consumo anual de eletricidade de um país como a Bélgica”.
A França também beneficia de alguns dos preços de eletricidade mais baixos da Europa, especialmente em comparação com a Alemanha e a Itália, observa a RTE.
O preço spot médio anual da eletricidade em França é de 61 euros por MWh, acima dos 39,4 euros por MWh em 2019, mas significativamente abaixo dos 275,9 euros por MWh em média em 2022, no auge da crise energética.
Por último, a França desempenha o papel de “encruzilhada eléctrica” na Europa com exportações que transitam para todo o continente, “além apenas dos países vizinhos”.