
Esta é a história de um golpe de sorte que pode revolucionar a nossa compreensão do cosmos: investigadores baseados nos Estados Unidos conseguiram observar por acaso uma estrela transformar-se num buraco negro sem antes explodir.
Esta transformação, publicada quinta-feira na prestigiada revista Science, constitui a evidência mais forte até à data de um fenómeno há muito teorizado, segundo o qual certas estrelas desaparecem lentamente em buracos negros sem produzir uma explosão espectacular, segundo os autores.
No entanto, o projeto não se concentrou nesses misteriosos corpos celestes, explica à AFP o astrofísico Kishalay De, principal autor do estudo.
Com os seus colegas, ele estava a estudar estrelas na galáxia vizinha de Andrómeda quando de repente apareceu um objecto invulgar que primeiro se iluminou… depois escureceu até desaparecer.
“Foi aí que o mistério realmente começou”, diz ele.
Para entender o que era, a equipe investigou então os arquivos da missão NEOWISE da NASA, que usa imagens infravermelhas de um telescópio espacial para detectar e caracterizar objetos próximos à Terra.
Usando esses dados, eles reconstruíram uma história de pelo menos uma década.
– “Supernova falhada” –
Esta não é a primeira vez que os cientistas observam o que consideram ser uma “supernova falhada”, ou seja, uma estrela a colapsar diretamente num buraco negro sem uma explosão deslumbrante chamada “supernova”. Um primeiro caso já havia sido identificado há cerca de dez anos.
Mas esta nova observação tem uma grande vantagem: provém da galáxia mais próxima da nossa, a cerca de 2,5 milhões de anos-luz da Terra, o que a torna muito mais brilhante e mais fácil de estudar.
Além disso, há mais de uma década de dados observacionais da estrela em questão, o que permitirá aos cientistas traçar a sua história recente, sublinha Daniel Holz, astrofísico da Universidade de Chicago, à AFP.
Para este especialista em buracos negros que não participou neste trabalho, a natureza “fortuita” desta nova descoberta é extremamente emocionante.
Os cientistas há muito que procuram estrelas que desaparecem subitamente, “mas apanhá-las em flagrante é difícil”, sublinha, lembrando que a morte de uma estrela ocorre após milhares de milhões de anos de existência.
“É preciso mesmo ter sorte. Não dá para ficar olhando para uma estrela e dizer ‘vou esperar aqui'”, observa.
– “Último Suspiro” –
É precisamente por esta razão que este estudo poderá abrir novas portas, diz Kishalay De.
Porque antes de se apagarem, as estrelas deveriam expelir parte de sua matéria e, assim, parecerem momentaneamente mais brilhantes. E é precisamente este fenómeno que “nos foi relatado em luz infravermelha, e que levou à descoberta”, explica.
“Isto aponta-nos para um método totalmente novo para identificar o desaparecimento de estrelas: não mais olhando apenas para as estrelas que estão a desaparecer, mas localizando a radiação infravermelha associada ao processo”, continua, descrevendo este fenómeno como o “último suspiro” da estrela.
A estrela identificada era menor do que aquilo que “normalmente” esperaríamos de um futuro buraco negro, observa ainda o astrofísico.
“Isto mostra-nos que o espectro de estrelas que podem transformar-se em buracos negros pode ser muito mais amplo do que considerávamos no passado”, conclui o Sr.
Para Daniel Holz, esta descoberta constitui “um tremendo avanço” na compreensão dos buracos negros no universo.
“Esta é uma nova prova de que eles realmente existem (…) E é simplesmente incrível.”