
A subida do nível dos oceanos ao longo das costas mundiais, ligada ao aquecimento global e à causa de desastres em cascata (inundações, erosão costeira, etc.), poderia ter sido subestimada, minando os riscos potenciais e as políticas de adaptação, revela um estudo científico divulgado quarta-feira.
Segundo análises realizadas por dois investigadores e publicadas na revista Nature, as diferenças entre as estimativas atuais e o nível real do mar rondariam em média os 0,3 m, podendo mesmo atingir vários metros em determinados locais.
Esta tendência é particularmente acentuada nos países do Sudeste Asiático e do Pacífico (1 a 1,5 m de diferença), já particularmente vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas: tufões, inundações, risco de submersão.
Subestimações também foram observadas na América Latina, na costa oeste da América do Norte, no Caribe, na África, no Oriente Médio e na região do Indo-Pacífico.
Algumas pequenas ilhas, localizadas logo acima do nível do mar, já aparecem na linha de frente. Entre eles, o arquipélago de Tuvalu, que vai acolher uma das reuniões preparatórias da Conferência das Nações Unidas sobre o Clima (COP31), e que segundo as estimativas atuais já ameaça ser engolido pela água até ao final do século.
– “Ponto cego” –
Parece “necessário reavaliar e, na maioria dos casos, atualizar a metodologia subjacente a todos os estudos existentes sobre riscos costeiros”, estimam os autores do estudo num comunicado de imprensa.
Para eles, estas discrepâncias observadas demonstram um “ponto cego” com “consequências consideráveis” para as pessoas que vivem nas zonas costeiras e para as políticas de adaptação adoptadas pelos governos.
Os seus resultados baseiam-se numa comparação de 385 artigos científicos revistos por pares publicados entre 2009 e 2025 sobre exposição costeira e avaliação de riscos, e no exame de meta-análises globais através de observações de satélite mais precisas para calcular a diferença entre o nível do mar costeiro comumente estimado e o nível real medido.
A diferença é explicada pelo facto de mais de 90% dos estudos se basearem em níveis do mar estimados a partir de modelos gravitacionais, chamados geóides, e não em medições locais directas, observam os autores.
No entanto, os modelos gravitacionais “têm apenas em conta a gravidade e a rotação da Terra e negligenciam outros factores que determinam o nível do mar, como marés, correntes e ventos”, sublinham.
“De certa forma, dá-nos a superfície dos oceanos numa situação calma. Portanto, sem perturbações”, o que não corresponde à realidade no terreno, explicou Philip Minderhoud, investigador especializado em questões do nível do mar na Universidade de Wageningen (Holanda) e um dos autores do estudo, durante um briefing telefónico.
– Até 68% mais pessoas em risco –
“Como resultado, o nível do mar é subestimado em 0,24 a 0,27 m dependendo do modelo geoide utilizado, com alguns desvios chegando até a 5,5 a 7,6 m”, indica o estudo.
A subida do nível dos oceanos é alimentada pelo aquecimento global através do aumento da temperatura marinha: os oceanos, através da expansão, ocupam mais volume. Além disso, a aceleração do derretimento das geleiras acrescenta quantidades significativas de água aos mares.
Esta subida do nível do mar representa uma grande ameaça para as comunidades costeiras, e o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) estima que o nível dos oceanos poderá aumentar entre 0,28 e 1 m até 2100.
Em comparação com estimativas anteriores, “uma hipotética subida do nível do mar de 1 m poderia submergir até 37% mais terra”, observa o estudo.
E nestas condições, “mais 68% de pessoas – até 132 milhões – encontrar-se-ão abaixo do nível do mar (….) em comparação com avaliações anteriores”, indica Katharina Seeger, cientista especializada na gestão de questões ligadas às inundações costeiras na Universidade de Wageningen, a outra autora do estudo.
“Isto tem implicações no planeamento da adaptação”, como a construção de muros marítimos ou outras medidas de proteção costeira e tende a “reduzir a nossa margem de manobra para nos adaptarmos à subida do nível do mar”, acredita o cientista.