Não é segredo. A União Europeia pretende relançar o seu crescimento económico, estimular a inovação e reforçar a sua competitividade. No fundo, um objectivo estratégico é essencial: adquirir uma verdadeira soberania digital e, ao mesmo tempo, reduzir a sua dependência dos gigantes tecnológicos americanos. Para Googleestas duas ambições seriam difíceis de conciliar. Mas para compreender esta posição, ela deve ser colocada no seu contexto político e económico. Estamos num momento crucial. Os líderes europeus reuniram-se recentemente na Bélgica para discutir a competitividade, enquanto Bruxelas prepara um ambicioso “pacote de soberania tecnológica” para a primavera.

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O objectivo declarado é claro: desenvolver soluções europeias de nuvem e software, a fim de limitar a dependência da infra-estrutura americana. Hoje, uma grande parte dos serviços públicos europeus, grandes empresas, hospitais, bancos e administrações dependem de tecnologias concebidas nos Estados Unidos. Esta situação levanta várias preocupações: o controlo de dados sensíveis, a segurança de infraestruturas críticas e, acima de tudo, riscos geopolíticos. Desde o regresso de Donald Trump ao poder no ano passado, as pressões diplomáticas e económicas em torno de questões tecnológicas reavivaram estas preocupações na Europa.


Tomada de decisões do Parlamento Europeu relativamente à sua soberania digital © Pexels

Em 22 de janeiro de 2026, o Parlamento Europeu adotou uma resolução que incentiva a integração de critérios que favorecem os produtos europeus nos contratos públicos. A mensagem é clara: quandodinheiro infraestruturas digitais das finanças públicas, poderia apoiar principalmente soluções desenvolvidas na Europa. Ao mesmo tempo, a União Europeia já aplica regras rigorosas às grandes plataformas digitais com a Lei dos Mercados Digitais (DMA), adotada em 2022. Este texto visa regular as práticas dos gigantes digitais, a fim de reequilibrar a concorrência no mercado europeu. Neste contexto, a Comissão Europeia está atualmente a investigar determinados serviços Google, nomeadamente o seu motor de pesquisa e o Google Play, suspeitos de não respeitarem integralmente estas novas obrigações.

Soberania às custas da experiência do usuário?

É neste contexto que Kent Walker, conselheiro geral e presidente de assuntos internacionais do Google, defende a ideia de “soberania digital aberta”. Segundo ele, erguer barreiras contra tecnologias estrangeiras seria contraproducente. Limitar o acesso às ferramentas de inteligência artificial mais avançadas ou aos serviços em nuvem representaria, segundo a Google, o risco de abrandar a inovação europeia e de privar os consumidores de tecnologias de ponta. O debate é complexo. Deveríamos proteger o mercado europeu para criar campeões locais? Ou permanecer totalmente aberto para beneficiar das melhores tecnologias globais?

A União Europeia enfrenta um atraso estrutural

A maioria dos gigantes da nuvem e da inteligência artificial são americanos e as infra-estruturas digitais mundiais estão concentradas nas mãos de poucos intervenientes. Construir alternativas europeias requer tempo, investimentos maciços e ecossistema capaz de competir internacionalmente. Mas a dependência de intervenientes estrangeiros também coloca grandes desafios estratégicos. O digital já não é apenas um setor económico; tornou-se um pilar de soberania, da mesma forma que a energia ou a defesa. Kent Walker evoca um “paradoxo competitivo” sobre este assunto: querer fortalecer a competitividade europeia e ao mesmo tempo restringir o acesso às tecnologias dominantes poderia, segundo ele, enfraquecer o ecossistema.

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Soma-se a isso outro risco apontado pelo Google: a fragmentação regulatória. Se cada Estado-Membro impor regras adicionais além do quadro europeu comum, desenvolver um programas compatível com 27 regimes diferentes poderá tornar-se uma dor de cabeça, susceptível de abrandar a inovação. O debate na verdade vai além do caso do Google. Com a iminente apresentação do pacote da “soberania tecnológica”, Bruxelas terá de clarificar a sua ambição: assumir uma soberania forte, sob o risco de agravamento das tensões com o Vale do Silícioou favorecer um compromisso em torno da “soberania aberta”.

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