
Os investigadores continuam divididos quanto às provas científicas que justificam a proibição das redes sociais para menores de 16 anos planeada pela Austrália, mas alguns vêem-na como uma janela de observação sem precedentes para compreender melhor o seu efeito no cérebro dos mais jovens.
Os defensores da proibição, que deverá entrar em vigor em 10 de dezembro, apontam para o grande número de estudos que sugerem que os jovens passam demasiado tempo online, colocando em risco a sua saúde mental.
Os cérebros dos adolescentes ainda estão em desenvolvimento até os 20 anos, diz a psicóloga Amy Orben, que dirige um programa de saúde mental na Universidade de Cambridge.
“À medida que a tecnologia evolui rapidamente, o conjunto de evidências será sempre incerto”, disse ela à AFP. Mas uma “grande quantidade” de estudos observacionais correlacionou o uso de tecnologia por adolescentes com problemas de saúde mental, observa ela.
É difícil tirar conclusões definitivas, reconhece, porque o uso do telemóvel está ancorado na vida quotidiana e porque os jovens que já sofrem de perturbações mentais podem recorrer às redes sociais.
“Avaliar a proibição na Austrália será extremamente importante porque nos dará uma janela sobre o que pode estar a acontecer” e permitirá a comparação de dados, sublinha.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma pesquisa no ano passado mostrando que 11% dos adolescentes lutam para controlar o uso das redes sociais.
Outros estudos demonstraram uma ligação entre o uso excessivo das redes sociais e a dificuldade em adormecer, problemas relacionados com a imagem corporal ou um risco aumentado de ansiedade e depressão.
– Aja sem demora –
Um estudo de 2019 com crianças em idade escolar norte-americanas publicado na revista científica JAMA Psychiatry concluiu que as crianças que passam mais de três horas por dia nas redes sociais podem correr um risco aumentado de problemas de saúde mental.
Alguns investigadores apelam a uma acção imediata.
“Não creio que seja uma questão científica, mas sim uma questão de valores”, disse Christian Heim, psiquiatra australiano e diretor de uma unidade clínica de saúde mental.
“Estamos falando de fatos como assédio online, risco de suicídio, acesso a sites que podem promover anorexia ou automutilação”, explica à AFP.
“Mal podemos esperar até termos mais provas”, diz ele, citando em particular um estudo de 2018 do investigador de neurociências Christian Montag que liga o vício às mensagens chinesas WeChat a uma diminuição da massa cinzenta em certas partes do cérebro.
De acordo com Scott Griffiths, da Escola de Ciências Psicológicas de Melbourne, é improvável que surja em breve um “estudo científico irrefutável” para provar os danos das redes sociais. Mas para ele, vale a pena tentar bani-los.
– “Muito radical” –
Mais de três quartos dos adultos australianos eram a favor da nova legislação antes de esta ser aprovada, de acordo com uma sondagem.
No entanto, 140 académicos e especialistas assinaram uma carta aberta alertando que a proibição corria o risco de ser “um instrumento demasiado radical”.
“As pessoas dizem: os jovens estão mais ansiosos, deve haver um motivo, vamos proibir as redes sociais”, resume Axel Bruns, professor de mídia digital da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália.
Mas os jovens podem simplesmente ter mais motivos para estar ansiosos, devido à interrupção da escolaridade pela pandemia ou pelas guerras em Gaza e na Ucrânia, disse ele à AFP.
Uma proibição poderia empurrar os adolescentes para sites alternativos com conteúdos mais extremos, ao mesmo tempo que impediria que alguns jovens marginalizados encontrassem o apoio de uma comunidade online.
Noelle Martin, ativista contra o assédio ligado à imagem corporal e aos deepfakes (fotos ou vídeos falsificados através de inteligência artificial) teme que esta medida seja ineficaz, dadas as dificuldades do país em aplicar as leis existentes.
“Não acredito que isto irá parar, prevenir ou tratar eficazmente este problema”, preocupa-se ela.
Ainda assim, a Austrália tomou a sua decisão.
“As redes sociais estão a prejudicar os nossos filhos”, disse este ano o primeiro-ministro Anthony Albanese.
“Não há dúvida de que as crianças australianas estão sendo afetadas negativamente pelas plataformas online, por isso digo que já basta.”