Foi um ritual que ele seguiu durante anos, verão e inverno, enquanto sua saúde permitia. Duas ou três vezes por semana, por volta das 20 horas, no centro de Roma, Umberto Bossi vinha sentar-se sozinho na esplanada de um café na Piazza Navona, em frente à esplêndida Fonte dos Quatro Rios, construída por Bernini. Lá pediu uma Coca-Cola, acendeu uma cigarrilha – uma toscana – e desfrutou de um momento de tranquilidade, entre os turistas. O risco de ser incomodado era insignificante: aqui quase ninguém era italiano, então quem poderia reconhecê-los?
Este pequeno hábito seria um tanto ridículo se não fosse, ao mesmo tempo, como o resumo de uma vida inteira. Entrou na política para combater a influência corruptora de “Roma ladrona” (“Roma, a ladra”) e conquistar a autonomia do norte do país, esta mítica Padania que, segundo ele, não tinha nada de sul, o velho acabara por se render, conquistado imperceptivelmente, ao longo do tempo, pela doçura da vida romana e pela profundidade infinita das suas belezas.
Fundador da Liga Norte, parlamentar durante mais de três décadas e ministro diversas vezes, Umberto Bossi foi um pilar da “segunda república” italiana, este sistema político nascido na década de 1990 sobre os escombros da democracia cristã. Morreu na quinta-feira, 19 de março, no hospital de Varese (Lombardia), aos 84 anos. Enfraquecido por vários ataques e desacreditado pelos empresários, desde a sua saída da liderança da Liga do Norte em 2012, apenas exerceu uma vaga autoridade simbólica sobre o partido agora liderado por Matteo Salvini e rebatizado de Liga.
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