DDonald Trump vangloriou-se de ter posto fim a oito guerras em oito meses, expressando surpresa por não ter recebido o Prémio Nobel da Paz em Outubro. Mas geralmente tão presunçoso, o Presidente dos Estados Unidos há muito que ignora um conflito pelo qual a sua administração se debate: a guerra no Sudão, as suas 150 mil vítimas e os seus mais de 11 milhões de pessoas deslocadas.
Tivemos que esperar até 19 de Novembro para ver o bilionário americano assumir – ou melhor, anunciar que está a assumir – o pesado dossiê sudanês, graças à visita aos Estados Unidos do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed Ben Salman. “MBS” pediu pessoalmente ao presidente americano que se envolvesse. Porque, para o parceiro saudita, a crise que dilacera o Sudão representa uma questão candente, dada a vizinhança do “país dos dois Nilos” do outro lado do Mar Vermelho.
Apesar dos estrondosos anúncios de Donald Trump, que garante – na sua rede Truth Social – “usar o seu poder e influência para pôr fim imediato ao que está a acontecer no Sudão”um cessar-fogo ainda parece improvável. O conflito dura desde Abril de 2023 sem que nenhuma das numerosas iniciativas diplomáticas tenha conseguido convencer os dois beligerantes a silenciar as armas: o exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (FSR), uma milícia paramilitar.
Os dois homens fortes do Sudão, o general Abdel Fattah Abdelrahman Al-Bourhane à frente do exército, e o líder da milícia Mohammed Hamdan Daglo (conhecido como “Hemetti”), primeiro uniram forças para roubar a revolução popular que derrubou o autocrata Omar Al-Bashir em 2019, antes da sua rivalidade destruir este “pacto” em 2023, mergulhando depois o país de 44 milhões de habitantes numa guerra civil total.
O confronto nesta vasta nação situada na encruzilhada dos mundos negro e árabe não pode, no entanto, ser reduzido a uma guerra fratricida entre dois generais. As velhas feridas de Darfur, palco de um genocídio no início dos anos 2000, reabriram, com a sua quota de ressentimentos e massacres entre populações marginalizadas, árabes e não-árabes, neste imenso deserto, do tamanho de Espanha, localizado no oeste do país. Finalmente e acima de tudo, o Sudão e os seus recursos – depósitos de ouro, porto no Mar Vermelho, imensas terras férteis – despertam o desejo de muitas potências do Golfo, que ali travam um conflito por procuração.
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