O continente gelado de 14 milhões de km2 – maior que a Europa – é protegido pelo Tratado da Antártica, assinado em 1959 por doze países, dos quais 58 países são agora membros. Estabelece o continente como uma terra de ciência e paz, ao mesmo tempo que congela as reivindicações territoriais. O tratado prevê que “A Antártica só deveria ser usada para fins pacíficos”e destaca o “liberdade de pesquisa científica” E “cooperação” nesse sentido.
“É aqui que ocorre o aumento do nível do mar, é aqui que ocorre o clima global”, Yan Ropert-Coudert, pesquisador e ex-diretor do Instituto Polar Francês, disse à AFP. O continente acumula cerca de 90% da água doce do mundo. Para monitorizar o possível incumprimento dos compromissos dos países membros, os estados realizam regularmente inspecções não anunciadas nas estações de outros, conforme permitido pelo tratado.
Cerca de trinta países operam em cerca de uma centena de bases ou infra-estruturas locais.

Novas estações chinesas
Alguns países estão muito presentes, como os Estados Unidos com sete infraestruturas, a Rússia (11), a Argentina e o Chile (13 e 14), informa a COMNAP, associação internacional que reúne estados in loco e inclui estações de investigação permanentes, sazonais e outras infraestruturas mais pequenas.
Outros estados mais pequenos também foram criados, como a Bielorrússia, a Bulgária e a Ucrânia. A França opera no lado oriental as estações Dumont d’Urville, na costa, e Concordia, no interior do continente, esta última com a Itália.
Numa época de distúrbios geopolíticos globais e de desejo de conquista americana na Gronelândia, e de abertura de rotas comerciais marítimas no Árctico tornada possível pelo derretimento do gelo, a questão das relações de poder também surge no Pólo Sul.
O desenvolvimento chinês na região, bem como a oposição de Moscovo e Pequim à criação de novas áreas marinhas protegidas fazem parte dos “sinais fracos” que podem ameaçar o estatuto do continente a longo prazo, analisa à AFP o embaixador francês para os pólos, Olivier Poivre d’Arvor.

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“Não é segredo: há grandes cartas com recursos naturais, petróleo, ouro”
Além disso, “A China não esconde o seu interesse nos recursos naturais da Antártica”mas de difícil acesso, observa Anna Wahlin, copresidente sueca do Comité Científico para a Investigação Antártica (SCAR), que coordena os esforços internacionais de investigação no continente.
“Não é segredo: existem grandes mapas, quando você visita o secretariado de pesquisa polar, com recursos naturais, petróleo, ouro”, ela continua. Depois de inaugurar uma quinta estação de pesquisa em 2024, Pequim, que também produz muita pesquisa científica, está considerando uma sexta.
A atração chinesa pela Antártica vem de mãos dadas com o desligamento americano da ciência.

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Aconteça o que acontecer, uma janela diplomática poderá abrir-se em 2048
Pela primeira vez em seis décadas, os Estados Unidos não têm mais um quebra-gelo no Oceano Antártico, depois que cortes orçamentários forçaram a National Science Foundation, em 2025, a devolver o Nathaniel B. Palmer, que alugava desde 1992. Além disso, “as delegações em reuniões internacionais sobre o tema ficam reduzidas a nada”observa Yan Ropert-Coudert, num cenário de questionamento da ciência por Donald Trump.
Aconteça o que acontecer, uma janela diplomática poderá abrir-se em 2048, uma vez que o Protocolo de Madrid de 4 de outubro de 1991, que entrou em vigor em 1998, prevê que o tratado possa ser reexaminado após 50 anos, se uma das partes o solicitar.
De momento, nada sugere que um país possa activar este mecanismo, na opinião de vários especialistas entrevistados. Além do argumento jurídico, no entanto, “o que vemos hoje sugere que daqui a vinte anos a força ainda poderá ser um argumento adicional” para uma revisão do estatuto especial da Antártica, alerta Olivier Poivre d’Arvor.