Imensa extensão de gelo no Pólo Sul, a Antártida é hoje protegida por um estatuto único no mundo com o qual concordam cerca de sessenta países e que garante paz e prioridade à ciência. Mas até quando?

– Um status único –

O continente gelado de 14 milhões de km2 – maior que a Europa – é protegido pelo Tratado da Antártica, assinado em 1959 por doze países, dos quais 58 países são agora membros. Estabelece o continente como uma terra de ciência e paz, ao mesmo tempo que congela as reivindicações territoriais.

O tratado prevê que “a Antártida só deve ser utilizada para fins pacíficos” e destaca a “liberdade de investigação científica” e a “cooperação” neste sentido.

“É aqui que ocorre o aumento do nível do mar, é aqui que ocorre o clima global”, disse à AFP Yan Ropert-Coudert, pesquisador e ex-diretor do Instituto Polar Francês. O continente acumula cerca de 90% da água doce do mundo.

Para monitorizar o possível incumprimento dos compromissos dos países membros, os estados realizam regularmente inspecções não anunciadas nas estações de outros, conforme permitido pelo tratado.

– Uma presença internacional –

Cerca de trinta países operam em cerca de uma centena de bases ou infra-estruturas locais.

Vista da paisagem da Estação Palmer dos Estados Unidos na Ilha de Antuérpia, Antártida, 21 de janeiro de 2024 (AFP/Arquivos - Juan BARRETO)
Vista da paisagem da Estação Palmer dos Estados Unidos na Ilha de Antuérpia, Antártida, 21 de janeiro de 2024 (AFP/Arquivos – Juan BARRETO)

Alguns países estão muito presentes, como os Estados Unidos com sete infraestruturas, a Rússia (11), a Argentina e o Chile (13 e 14), informa a COMNAP, associação internacional que reúne estados in loco e inclui estações de investigação permanentes, sazonais e outras infraestruturas mais pequenas.

Outros estados mais pequenos também foram criados, como a Bielorrússia, a Bulgária e a Ucrânia.

A França opera no lado oriental as estações Dumont d’Urville, na costa, e Concordia, no interior do continente, esta última com a Itália.

Numa época de distúrbios geopolíticos globais e de desejo de conquista americana na Gronelândia, e de abertura de rotas comerciais marítimas no Árctico tornada possível pelo derretimento do gelo, a questão das relações de poder também surge no Pólo Sul.

– Novas estações chinesas –

O desenvolvimento chinês na região, bem como a oposição de Moscovo e Pequim à criação de novas áreas marinhas protegidas fazem parte dos “sinais fracos” que podem ameaçar o estatuto do continente a longo prazo, analisa à AFP o embaixador francês para os pólos, Olivier Poivre d’Arvor.

Imagem de satélite, obtida pela Maxar Technologies em 7 de março de 2023 e divulgada em 28 de abril de 2023, mostrando a estação de pesquisa chinesa de Zhongshan na Antártica (imagem de satélite ©2023 Maxar Technologies/AFP/Arquivos - Folheto)
Imagem de satélite, obtida pela Maxar Technologies em 7 de março de 2023 e divulgada em 28 de abril de 2023, mostrando a estação de pesquisa chinesa de Zhongshan na Antártica (imagem de satélite ©2023 Maxar Technologies/AFP/Arquivos – Folheto)

Além disso, “a China não esconde o seu interesse pelos recursos naturais da Antártica”, embora sejam de difícil acesso, observa Anna Wahlin, copresidente sueca do Comité Científico para a Investigação Antártica (SCAR), que coordena os esforços internacionais de investigação no continente.

“Não é segredo: existem grandes mapas, quando você visita o secretariado de pesquisa polar, com recursos naturais, petróleo, ouro”, continua ela.

Depois de inaugurar uma quinta estação de pesquisa em 2024, Pequim, que também produz muita pesquisa científica, está considerando uma sexta.

– Desengajamento americano –

A atração chinesa pela Antártica vem de mãos dadas com o desligamento americano da ciência.

O continente gelado de 14 milhões de km2 – maior que a Europa – é protegido pelo Tratado da Antártica, assinado em 1959 (AFP/Arquivos - Juan BARRETO)
O continente gelado de 14 milhões de km2 – maior que a Europa – é protegido pelo Tratado da Antártica, assinado em 1959 (AFP/Arquivos – Juan BARRETO)

Pela primeira vez em seis décadas, os Estados Unidos já não têm um quebra-gelo no Oceano Antártico, depois de cortes orçamentais forçarem a National Science Foundation, em 2025, a devolver o Nathaniel B. Palmer, que tinha alugado desde 1992.

Além disso, “as delegações nas reuniões internacionais sobre o tema são reduzidas a nada”, observa Yan Ropert-Coudert, num contexto de questionamento da ciência por parte de Donald Trump.

– Rumo a uma revisão do tratado? –

Aconteça o que acontecer, uma janela diplomática poderá abrir-se em 2048, uma vez que o Protocolo de Madrid de 4 de outubro de 1991, que entrou em vigor em 1998, prevê que o tratado possa ser reexaminado após 50 anos, se uma das partes o solicitar.

De momento, nada sugere que um país possa activar este mecanismo, na opinião de vários especialistas entrevistados.

Para além do argumento jurídico, porém, “o que vemos hoje sugere que, dentro de vinte anos, a força poderá sempre ser um argumento adicional” para uma revisão do estatuto especial da Antártica, alerta Olivier Poivre d’Arvor.

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