Mais de trinta anos antes de a Marvel se esforçar para recuperar seus personagens espalhados pela 20th Century FOX ou Sony, a empresa não tinha um estúdio interno e não hesitou em revender os direitos do filme de seus super-heróis ao lance mais alto, apenas para ganhar algum dinheiro durante um período financeiramente complicado.
Atualizado em 25 de julho de 2025: Enquanto Quarteto Fantástico – Primeiro não está nos cinemas há alguns dias, uma retrospectiva da caótica primeira adaptação.
Artigo de 9 de agosto de 2015: Estamos em 1983 quando o produtor alemão Bernd Eichingerpatrão extremamente rico da produtora Neue Constantin, chega a Stan Lee. Ele quer fazer um filme sobre o Quarteto Fantástico e pergunta o preço. Sem sorte, Maravilha precisava tanto do trigo que já havia vendido o Tocha Humana para a Universal em 1977. Eichinger, grande fã de quadrinhos, não quis adquirir uma equipe amputada e preferiu deixá-la passar. Ele enfrenta o problema com paciência e retorna três anos depois, quando o personagem finalmente retorna ao redil da Casa das Ideias. Sem que Johnny Storm tenha sido utilizado uma única vez pela competição.
O produtor conseguiu obter os direitos de Quarteto Fantástico pela quantia ridiculamente baixa de US$ 250 mil (em 1985, a Marvel vendeu o Homem-Aranha para a Cannon Films por US$ 225 mil). Um acordo de ouro, mas o orçamento necessário para fazer um filme digno desse nome teria sido surreal. Eichinger então deixa os anos passarem, até acordar em 1992, percebendo que os direitos expiram em 31 de dezembro.
Ele tenta discutir uma prorrogação com a Marvel, que recusa categoricamente. Logicamente, a empresa percebeu entretanto que seus personagens poderiam render muito dinheiro, como o que a DC Comics conseguiu fazer com Superman e Batman. “Eles odiaram esse acordo. Eles perceberam que poderiam vender propriedades da Marvel por muito mais.“, garante Eichinger. Então o empresário tem uma ideia genial: vai lançar a produção de um filme falido e insignificante antes de 31 de dezembro, só para poder ficar com os direitos dos personagens.
Roger Cormanespecializada em orçamentos de baixo custo, é contratada três meses antes do prazo. Em um fim de semana, ele fez seus pequenos cálculos e achou que conseguiria montar o filme por apenas um milhão de dólares. A única exigência do produtor/diretor é começar a filmar o mais tarde possível, apenas para aproveitar o pouco tempo que lhe resta. Ele propõe abertamente o dia 31 de dezembro, o que irrita um pouco Eichinger, que não quer que seu estratagema pareça muito óbvio aos olhos da Marvel. As câmeras serão, portanto, ligadas no dia 28 do mesmo mês.
Rapidamente é escolhido um diretor, neste caso o fanboy Oley Sassoneque se destacou com vários clipes e pequenas produções, como Bloodfist III: Forçado a Lutar. “Eu nem precisei pensar antes de aceitar“, garante o jovem de Nova Orleans, que cresceu lendo quadrinhos. Seu sonho estava se tornando realidade, mas na verdade ele não tinha ideia de para onde estava indo. Eichinger queria economizar e, acima de tudo, não precisava de grandes nomes para sua produção. Ele então contratou atores de segunda categoria, que concordaram em filmar por míseros 3.500 dólares por semana. Alex Hyde-White, Jay Underwood, Rebecca Staab E Michael Bailey Smith são escolhidos para interpretar o Quarteto Fantástico, enquanto José Culp é contratado para o papel de Doom.
As filmagens ocorreram principalmente no Concorde Studios em Venice, Los Angeles. Uma velha serraria abandonada convertida a baixo custo por Bernd Eichinger em 1980: o lugar está cheio de ratos e baratas, a chuva escorre pelo telhado… Para gastar um pouco menos, os cenários utilizados são os de filmes antigos, reorganizados às pressas. Os atores percebem que estas condições não são totalmente normais para uma produção deste tipo, mas convencem-se de que fazendo o seu melhor, Quarteto Fantástico será uma plataforma de lançamento para suas carreiras.
“Parecia que estávamos fazendo um filme de verdade.“, confidencia Jay Underwood. Vinte e um dias depois, a adaptação barata dos personagens da Marvel está na caixa. Stan Leeque já esteve no set diversas vezes, parece animado. A pós-produção durará meses, para um resultado final mais do que perigoso em termos de efeitos especiais. Os compositores da trilha sonora gastam seu próprio dinheiro para gravá-la. Surrealista.

Um filme para “queimar”
No verão de 1993, a promoção começou com trailers exibidos nos cinemas e transmitidos em fitas cassete de outras produções falidas de Roger Corman, como Carnosaur. O elenco circula, aparece na San Diego Comic-Con e em convenções geek populares. A estreia mundial está marcada para 19 de janeiro de 1994, em Minneapolis. Então tudo desaba, depois de alguns telefonemas. Quarteto Fantástico não vai sair. “Este filme“, resumo Stan Lee“não deveria ter sido visto por nenhum ser humano. O que é trágico é que aqueles que trabalharam nisso não sabiam disso“.
Os atores ficam sabendo da novidade, ouvem o boato de que Eichinger nunca teve a intenção de colocar o longa-metragem nos cinemas. Eles estão furiosos (“Não entendo por que eles não foram honestos o suficiente para nos contar desde o início.“, dirá Michael Bailey Smith). Nunca saberemos realmente se o produtor tomou sua decisão quando viu a versão final do filme ou se seu plano foi escrito quando começou a filmar. Uma coisa é certa, porém: em 1993, Avi Arad – produtor famoso que ajudou a colocar os filmes da Marvel de volta no caminho certo com Homem-Aranha E X-Men ligue para Eichinger. Preocupado com isso Quarteto Fantástico não estraga a franquia para o cinema, ele se oferece para reembolsá-lo por tudo o que o filme custou e para recomprar os direitos. O que Eichinger aceita, ganhando uma pequena fortuna no processo.
Arad confirmou isso em uma entrevista em 2002, dizendo que ele “gastou alguns milhões de dólares“para poder”queimar” o filme. Literalmente, ou quase, já que ele teve todas as cópias disponíveis destruídas e não assistiu nenhuma delas. Infelizmente (ou por acaso?), uma delas, cuja origem permanece desconhecida, escapou pelas frestas e foi copiada e recopiada. O filme esteve à venda em todas as convenções geek, comprado no eBay e logo alcançou a imortalidade graças à Internet. Mas a história não termina aí, já que Eichinger ainda detém os direitos de um “grande” filme O Quarteto Fantástico, e ele não hesitará em usá-los. Em 1994, ele assinou Chris Colombo por uma adaptação de US$ 40 milhões. O projeto não avança e o diretor acaba saindo, sendo substituído por outros (Peyton Reed, Sean AstinPeter Seagal…), mas a produção, iniciada em 1996, está estagnada. No entanto, rumores falam de George Clooney em Senhor Fantástico, Jéssica Simpson em Sue Storm ou Tim Robbins em Doom.
Ainda vivo
Em última análise, foi apenas em 2005 que a primeira versão “real” do Quarteto Fantástico no cinema, sob a direção de História de Timque tem um orçamento de US$ 100 milhões. Ioan Gruffudd, Jéssica Alba, Chris Evans, Michael Chiklis E Julian McMahon formam o elenco, enquanto Stan Lee é creditado como produtor executivo e faz uma participação especial no filme. Avi Arad, Chris Colombo e claro Bernd Eichinger são os produtores. Um pequeno sucesso, com 330 milhões de dólares arrecadados em bilheteria mundial. O suficiente para oferecer uma sequência em 2007, que fracassou severamente (289 milhões de dólares em receita para um orçamento de 130 milhões), marcando o fim da franquia nas telonas até 2015, e a reinicialização não muito tranquilizadora de Josh Trank. Desta vez, sozinho Avi Arad E Stan Lee estão na lista de produtores.
Mas Quarteto Fantástico de 1994 está mais vivo do que nunca, ao alcance de todos os curiosos. Uma garota cult à solta.