euBotox é o sonho de todos aqueles que se demoram nas fotos de atrizes, em busca de provas de “pequeno golpe de bisturi” ou uma pequena injeção, enfim, sinais de que o envelhecimento ainda não é realmente aceito. De minha parte, há muito desprezo o uso da medicina estética: a pele lisa me parecia duvidosa, sem falar na minha leve fobia médica. A ideia de confiar meu rosto a seringas não foi suficiente para me fazer sonhar.
Foi o passado da minha relação com a medicina, um pouco desconfiado, muito temeroso, muito anterior ao AVC e à sua companheira hemiplegia que me obrigou a aculturar-me à condição de paciente. Agora que se tornou um companheiro regular da minha metade esquerda, vejo o Botox de forma muito diferente.
Foram os médicos de medicina física e de reabilitação que me falaram pela primeira vez sobre as injeções de toxina botulínica (também conhecido como Botox) para combater a espasticidade que me incomodava diariamente. A espasticidade é um tônus muscular incontrolável. Manifesta-se a qualquer hora, da noite ou do dia, fazendo-me sentir como um coelho de desenho animado, quando minha mão ou pé esquerdo fica subitamente agitado por espasmos e tremores repetitivos, em momentos incongruentes, principalmente ao bocejar. Bocejo e meu pé esquerdo começa a bater no chão. Pan bang estilo rock’n’roll!
Não entendo como funciona, mas o fenômeno se repete durante ataques intermináveis de soluços, que às vezes trazem de volta superstições de menina: soluços recalcitrantes = morte. A espasticidade me faz rir menos quando resulta em extrema rigidez dos membros paralisados. A minha perna esquerda adquire assim a consistência da madeira ou do metal: ninguém consegue dobrá-la, mesmo o mais forte dos homens, por exemplo quando tenho de me sentar para me sentar na ambulância que me transporta diariamente da minha casa para o centro de reabilitação.
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