J.Não comentarei os acontecimentos que hoje ameaçam uma das maiores riquezas culturais do nosso país: a diversidade editorial, legado de dois séculos de história. Sempre serei suspeito de ter “uma ideia na minha cabeça”entendendo-se que publicar é, como diria André Malraux com um sorriso, “também uma indústria”. Mas é uma convicção que quero expressar aqui, e que só deriva a sua legitimidade daquilo que nos foi dado coletivamente transmitido.
Não existe uma medida comum entre uma política editorial e um calendário eleitoral. Sacrificar um catálogo – cento e vinte anos de história literária, com Grasset, aliás – a cálculos políticos é trair a própria missão da nossa profissão.
Sempre existiram casas militantes, subservientes a um partido. Mas, ao fazerem esta escolha, renunciaram imediatamente à criação literária e ao debate de ideias, fundamento da nossa democracia cultural. O que defendíamos ao pedir a libertação de Boualem Sansal era esta liberdade: a da expressão plural, garantida por um lugar que a protege. Uma moral exigente, certamente, mas nossa. Parte do pressuposto de que sob a mesma capa coexistem obras com visões contraditórias – singularidades estas que constituem a própria substância da literatura.
Nosso papel, editores de literatura e de ciências humanas, é garantir essa neutralidade. Sem isso, tudo o que resta é alinhamento, ortodoxia, conformismo. O lugar a partir do qual alguém se expressa é tão importante quanto o que está escrito ali. Este princípio justifica a intervenção do Estado, não como censor, mas como regulador, preservando o equilíbrio de um setor frágil.
Enormes desafios
A política, quando reduzida à busca pelo poder, é um veneno para a publicação. A influência ideológica e os slogans eleitorais sufocam a vida editorial. Ameaçam os autores, as equipas, os leitores – e foi isso que não consegui fazer compreender a Boualem Sansal, para meu grande pesar.
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