Ossos de medula e caracóis, Saint-Pourçain e vinho Jura… A gastronomia francesa está em destaque no Butterworth’s, o restaurante preferido das elites trumpistas no Capitólio, em Washington. No início de dezembro, outro tipo de requinte bem francês é oferecido aos hóspedes: O Acampamento dos Santos, romance distópico de Jean Raspail, publicado em 1973.
A obra, com racismo exuberante, imagina a chegada de um milhão de imigrantes indianos à Côte d’Azur, “monstrinhos” tem “pele escura”, cujo desembarque anuncia o fim da “mundo branco”. Cerca de cinquenta pessoas compareceram para comemorar a reedição do livro nos Estados Unidos. A noite é privada, a lista de convidados é mantida em segredo.
Este clássico da extrema direita já não circulava através do Atlântico, exceto em edições antigas e amareladas. Seu editor, Ethan Rundell, 53 anos, ex-aluno da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, concordou em produzir uma nova tradução para o inglês para a ocasião. O Acampamento dos Santos é o chefe de gôndola de sua casinha, Vauban Books, que leva o nome do engenheiro de Luís XIV, cujas fortalezas simbolizam a defesa de “limites naturais”… Ele também põe à venda uma coleção de textos de Renaud Camus, o pai da conspiração e da teoria racista da “grande substituição”.
O Acampamento dos Santos é um livro de culto entre os ideólogos da luta contra a imigração, que o brandiram como um folheto durante meio século para tentar convencer da necessidade de erguer muros. O todo-poderoso vice-chefe da administração Trump, Stephen Miller, mentor da caça aos imigrantes ilegais nos Estados Unidos, recomendou, em 2015, ao site de notícias ultraconservador Breitbart para promovê-lo.
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