“Listas de tarefas”, um hábito específico do nosso dia a dia sobrecarregado? Certamente não. Há mais de 2.000 anos, os egípcios também precisavam “fazer listas” para organizar melhor os seus dias.

Num comunicado de imprensa datado de 12 de março de 2026, uma missão arqueológica conjunta do Ministério do Turismo egípcio e da Universidade de Tübingen, na Alemanha, anunciou que entre 2005 e 2026 foram desenterrados mais de 43.000 óstraco — cacos de cerâmica ou cacos de calcário usados ​​pelos egípcios para fazer anotações no dia a dia. As escavações decorreram no complexo de Athribis, situado a cerca de 10 quilómetros a oeste do Nilo, que hoje ultrapassa em importância locais emblemáticos como Deir el-Medina, há muito uma referência no estudo da vida quotidiana.

Ostraca, equivalente a papel

“Os óstracos nos revelam uma variedade surpreendente de situações cotidianas”, Christian Leitz, um egiptólogo de Tübingen, disse no comunicado. “Este conteúdo nos dá uma visão direta da vida do povo de Atribis e faz dos óstracos uma fonte importante para uma história social abrangente da região.” Usados ​​como materiais de escrita baratos, esses fragmentos de cerâmica eram, na verdade, equivalentes ao papel comum. Longe de serem inscrições monumentais destinadas à eternidade, eram usadas para anotar informações práticas, muitas vezes efêmeras.

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“Buscar pedra para o escriba”, “preparar cerveja”, “trabalhe em casa” (ou “construa sua casa”), “fazer oferendas ao deus”, “ajudar o escriba”, “fazer remédios”, “participar de uma festa” são todas as tarefas listadas nos fragmentos. A estes acrescentam-se também notas mais pessoais ou inesperadas, justificando nomeadamente a impossibilidade de realização de determinadas tarefas: “a mãe dele está doente”, “a esposa dele está sangrando”, “picado por um escorpião”, “cuidar de um ente querido”… No geral, o conteúdo destes fragmentos é notavelmente diversificado. Lá encontramos notas fiscais, notas administrativas, listas de entrega, mas também mensagens pessoais, exercícios de redação e textos religiosos. Alguns documentos atestam inclusive funções específicas, como certificados vinculados a rituais ou atividades sacerdotais.

Um testemunho da vida “comum”

As inscrições mais antigas datam do século III a.C., enquanto as mais recentes datam do início do segundo milénio d.C.. Esta rara continuidade permite acompanhar a evolução desta sociedade egípcia durante um período excepcional. De forma mais ampla, para os arqueólogos, estes óstracos oferecem acesso direto a uma história muitas vezes invisível nas principais fontes oficiais: a dos habitantes comuns. Testemunham uma sociedade estruturada, na qual a capacidade de ler e escrever estava mais difundida do que se imaginava até então.

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Outro elemento marcante é a diversidade de linguagens e escritas utilizadas. Nestes fragmentos aparecem demóticos, gregos, hieráticos, coptas e até árabes, reflectindo as múltiplas influências culturais e políticas que atravessaram o Egipto ao longo dos séculos.

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