“A percepção das cores é universal em todas as espécies animais?”Alpha Yeni nos pergunta em nossa página no Facebook. Esta é a nossa pergunta do leitor da semana. Obrigado a todos pela sua participação.

Imagine uma papoula vibrante em um campo. Aos nossos olhos é um vermelho uniforme, quase banal. Porém, para uma abelha em busca de néctar, esta flor é algo totalmente diferente: um alvo luminoso, decorado com padrões ultravioleta invisíveis para nós. Esta simples discrepância resume uma realidade fascinante: a cor não é uma propriedade absoluta do mundo, mas uma construção biológica, específica de cada espécie.

Uma riqueza na retina humana que permanece rara em animais

Tudo começa na retina, a fina membrana que reveste a parte posterior do olho. Nos humanos, dois tipos de células captam a luz: os bastonetes, especializados na visão noturna, e os cones, responsáveis ​​pela percepção das cores. Eles vêm em três categorias, sensíveis respectivamente ao azul, verde e vermelho. Este sistema denominado “tricromático” permite-nos distinguir uma vasta gama de tonalidades.

Mas esta riqueza não é a norma no reino animal. A maioria dos mamíferos (incluindo cães e gatos) possui apenas dois tipos de cones, sensíveis ao azul e ao verde. Resultado: eles percebem mal os tons de vermelho, se é que percebem. “Costuma-se dizer que eles são daltônicos, mas seria mais correto dizer que eles não veem o vermelho”, destacado em 2024 em artigo anterior de Ciência e Futuro Robert Johnson, pesquisador da Universidade Johns Hopkins (Estados Unidos). Essa limitação explica por que um brinquedo vermelho pode parecer acinzentado para um cachorro, enquanto uma bola azul parece clara para ele.

O papel fundamental de uma proteína

Por trás dessas diferenças existe uma sutileza molecular. Os cones verdes e vermelhos são quase idênticos: seus genes têm 96% de semelhança. O que os distingue é uma proteína, a opsina, que determina o comprimento de onda da luz absorvida. A opsina M corresponde ao verde, a opsina L ao vermelho.

Durante muito tempo, os cientistas pensaram que a diferenciação entre estes dois tipos de cones era uma questão de acaso. Um estudo publicado em 2024 na revista Biologia Plos pela equipe de Robert Johnson vira essa ideia de cabeça para baixo. Ao cultivar “mini-retinas” humanas – organóides – durante quase 200 dias, os investigadores observaram que este processo na verdade segue uma orquestração precisa.

No centro do mecanismo: o ácido retinóico, um derivado da vitamina A. Presente no início do desenvolvimento, promove a formação de cones sensíveis ao verde. Então, à medida que o seu nível diminui, a retina produz mais cones de detecção de vermelho. Um verdadeiro “temporizador biológico”, controlado em parte por um gene específico, garante assim o equilíbrio certo entre estas células.

Por que essa capacidade de ver o vermelho apareceu em humanos e em certos primatas (chimpanzés, gorilas, etc.)? Uma hipótese comumente apresentada diz respeito à dieta. Distinguir frutos maduros (muitas vezes vermelhos ou laranja) na vegetação teria constituído uma grande vantagem evolutiva. Este refinamento sensorial nos diferencia de muitos animais, mas não nos coloca no topo da hierarquia visual. Porque outras espécies percebem dimensões que nos escapam totalmente.

Veja o invisível

As abelhas, por exemplo, são sensíveis à luz ultravioleta. Onde vemos uma superfície uniforme, eles detectam padrões complexos que orientam sua busca pelo néctar. Muitos pássaros (chapins, tordo-americano, etc.) também possuem essa habilidade, e alguns vão ainda mais longe, percebendo até quatro ou cinco canais de cores.

Para compreender melhor esses mundos perceptivos, pesquisadores das universidades de Sussex (Reino Unido) e George Mason (Estados Unidos) desenvolveram um sistema de câmeras capaz de capturar simultaneamente comprimentos de onda visíveis e ultravioleta. Publicado em 2024 na revista Biologia Plosseu método permite reconstruir as cores conforme os animais as percebem, com precisão superior a 92%. Estas imagens revelam um universo insuspeitado, onde os sinais visuais desempenham um papel crucial na comunicação, camuflagem ou reprodução. Para descobrir no vídeo abaixo.

Uma visão muito pessoal, de um humano para outro

Fato surpreendente: mesmo em humanos, a percepção das cores varia. Ao mapear a retina de 700 pessoas, a equipe de Johns-Hopkins mostrou que a proporção de cones vermelhos e verdes difere muito de um indivíduo para outro, sem alterar significativamente a visão. Assim, uma bola de tênis pode parecer mais amarela para alguns e mais esverdeada para outros. Esta variabilidade lembra-nos que a nossa percepção do mundo é sempre uma interpretação, moldada pela nossa biologia.

Esta pesquisa abre perspectivas médicas. Ao dominar os mecanismos que regem a formação dos fotorreceptores, os pesquisadores esperam poder cultivar retinas artificiais e, em última análise, restaurar a visão em pacientes com doenças oculares. “Nós apenas arranhamos a superfície da compreensão dos fotorreceptores”, reconheceu Robert Johnson em 2024. Porque a retina humana contém mais de 100 tipos de células diferentes! Em última análise, a questão não é apenas por que vemos certas cores que outros animais ignoram. É também o contrário: quantas nuances do mundo ainda nos escapam?

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