O surgimento da vida na Terra continua sendo um dos maiores mistérios científicos. Duas grandes visões se confrontam, ou melhor, se complementam. A primeira propõe que as moléculas orgânicas foram formadas diretamente na Terra, em ambientes ricos em energia, como oceanos primitivos ou o fontes hidrotermaisuma ideia herdada nomeadamente do trabalho de Stanley Miller e Harold Urey na década de 1950.

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NASA confirma ingrediente inesperado em asteroide: a vida pode não ter começado aqui!
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A segunda, chamada panspermia, sugere que os blocos básicos de construção da vida foram trazidos do espaço por meteoritos, cometas ou asteróides. Nesse cenário, a Terra não teria “inventado” tudo, mas teria recebido parte de sua matéria química de fora. Durante várias décadas, esta hipótese ganhou credibilidade à medida que moléculas orgânicas complexas foram descobertas em objetos extraterrestres.
Dos meteoritos aos asteróides: química orgânica já bem identificada
Muito antes das missões espaciais modernas, certos meteoritos que caíram na Terra já tinham fornecido pistas fascinantes. Por exemplo, o meteorito Murchison, que caiu na Austrália em 1969, contém dezenas deaminoácidos bem como a água, revelando uma química rico orgânico formado no espaço.
Da mesma forma, o meteorito Orgueil, que caiu na França em 1864, pertence a uma classe muito primitiva (condritos carbonáceo tipo CI) e hoje serve de referência para a composição química de Sistema solar.

Em 14 de maio de 1864, um meteorito caiu ao sul de Montauban. Explode em múltiplos fragmentos, a maioria dos quais recolhidos na cidade de Orgueil, daí o seu nome: meteorito de Orgueil. © MNHN, J.-C. Domenech
Esses meteoritos provavelmente vêm de asteróides antigos ricos em carbonoformado muito cedo na história do Sistema Solar. Mas têm um limite importante: a sua passagem para oatmosfera e a sua permanência na Terra pode alterar a sua composição, complicando a sua interpretação. É por isso que exemplos de missões de retorno, como a realizada em direção a Bennu (missão Osíris-REx), marcou um passo decisivo ao possibilitar o estudo de materiais mais bem conservados.
Ryugu: um fragmento intacto do início do Sistema Solar
O asteroide Ryugu é um pequeno corpo com aproximadamente 900 metros de diâmetro, pertencente à categoria dos asteroides carbonáceos e evoluindo em uma órbita perto da Terra. As análises indicam que é constituído por materiais extremamente primitivos, próximos aos mais antigos condritos carbonáceos. Seu corpo parental teria se formado longe do Solem regiões muito frias do disco protoplanetárioantes de ser fragmentado e depois remontado.
A missão Hayabusa 2, lançada em 2014, permitiu recolher amostras da superfície, mas também em profundidade graças a um impacto artificial – uma inovação. Esses materiais foram trazidos de volta à Terra em 2020 em condições que evitavam qualquer contaminação.

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As principais formas de Ryugu e Bennu explicadas por Patrick Michel, especialista em asteróides
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Tal como os de Bennu, estão excepcionalmente bem preservados, mas oferecem uma visão complementar: Ryugu parece ter sofrido alterações aquosas mais acentuadas, revelando uma química diferente, mas igualmente primitiva, do jovem Sistema Solar.
Nucleobases formadas no espaço: quais mecanismos?
De acordo com um estudo realizado por uma equipe de cientistas japoneses e publicado na revista NaturezaRyugu contém não apenas aminoácidos, mas também nucleobases, os blocos de construção deADN e oARN.
Vários processos são considerados para explicar a formação destas moléculas complexas no espaço, incluindo por exemplo reações químicas em gelos interestelares sob o efeito da radiação ultravioleta ou raios cósmicos, ou mesmo reações químicas favorecidas pela presença deamônia para a formação de nucleobases, abrindo caminho para mecanismos ainda pouco compreendidos.
Estes ambientes extraterrestres, frios e ricos em química, poderiam, portanto, funcionar como verdadeiros reatores naturais capazes de produzir os blocos de construção da vida.

O asteroide Ryugu durante sua aproximação pela sonda japonesa Hayabusa 2. © Jaxa
Uma descoberta importante para a panspermia… mas ainda há dúvidas
A detecção de todas as bases de DNA e RNA na mesma amostra constitui um grande avanço. Isto sugere que estas moléculas podem formar-se juntas em ambientes extraterrestres e, portanto, ser entregues como um “kit” a um planeta como a Terra.
Esses resultados reforçam fortemente a hipótese de panspermia química: não a vida do espaço, mas a química prebiótico de origem cósmica, tendo facilitado o surgimento de coisas vivas. Em outras palavras, os ingredientes da vida não poderiam ser uma exceção terrestre, mas uma consequência natural da química da cosmos.
Mas muitas questões permanecem: como é que estas moléculas se agrupam em estruturas mais complexas? Que condições permitem a sua evolução para sistemas vivos? Ou ainda, esses processos são universais? Missões futuras, como as que visam outros asteróides ou cometas, ajudarão a refinar estas respostas.

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Os flashes ocultos da vida: uma descoberta que abala a origem da vida!
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Estes resultados não só enriquecem o nosso inventário molecular: também têm implicações importantes para a nossa compreensão da origem da vida. Se os blocos de construção da vida estiverem presentes em asteróides como Ryugu ou Bennu, então eles poderão estar espalhados por todo o mundo. Galáxia.
Cada colisão, cada chuva de meteoros num planeta jovem poderia semear os ingredientes necessários paraemergência da vida. E neste caso, a Terra pode não ser uma exceção, mas simplesmente um dos muitos lugares onde a química do cosmos conseguiu organizar-se… até ganhar vida.