A ministra francesa da Transição Ecológica, Monique Barbut, apelou esta segunda-feira, numa entrevista à AFP, a uma mudança de tom da União Europeia nas negociações climáticas, que estão a “correr mal”, à medida que os países emergentes se arrastam.
Monique Barbut aponta particularmente o dedo à Índia e ameaça bloquear os fundos europeus destinados ao país se Nova Deli não respeitar os seus compromissos climáticos.
Os estados europeus deverão debater a diplomacia climática da UE esta terça-feira em Bruxelas.
Pergunta: Porque é que apela a uma mudança na diplomacia climática da União Europeia e qual?
Resposta: “Quero que aprendamos as lições de Belém (a conferência climática da ONU em novembro passado no Brasil, nota do editor), depois de uma série de outros fracassos.
A COP30 foi muito falada e nenhuma decisão real sobre os gases com efeito de estufa, nem mesmo menção explícita ao papel desempenhado pelos combustíveis fósseis ou pela desflorestação. Numa COP realizada no meio da Amazônia descobri que ainda havia muito café.
E por outro lado, há um questionamento da União Europeia sobre quase tudo, estou a pensar por exemplo no MACF (o imposto sobre o carbono nas fronteiras da Europa).
No que diz respeito ao financiamento climático, a mensagem de certos países emergentes resume-se a +pagar e movimentar-se, não há nada para ver+.
Concluí que talvez precisássemos de mudar um pouco a forma como abordamos estas negociações multilaterais.”
P: Que alavancas os europeus poderiam usar?
R: “Em primeiro lugar, os europeus devem parar de fazer grandes declarações preliminares quando elas não são seguidas de qualquer efeito. Devemos recuperar a credibilidade. Devo dizer que a retirada americana (do Acordo de Paris) não nos ajuda. Antes da sua retirada, claramente, nós nos abrigamos de uma forma um tanto hipócrita atrás das posições americanas que souberam ser firmes.
Agora que já não há americanos, que os canadianos e os ingleses estão completamente ausentes destas discussões, o chamado mundo ocidental somos quase só nós. A Europa deve, portanto, assumir as suas responsabilidades e assumir posições firmes a partir de agora.
Devemos preparar as nossas negociações mais cedo, para que possamos desenvolver um documento político que sirva de base para a discussão e que seja previamente validado pelos nossos chefes de Estado. E se não conseguirmos o que pedimos no nosso documento básico, temos de concordar em ir tão longe quanto o fracasso de uma conferência.
Penso também que precisamos de uma abordagem mais estratégica e também mais transacional.”
P: O que significa uma abordagem transacional?
R: “Isso significa claramente que ‘só pagamos se você o fizer’. Vou dar-lhe um exemplo que aconteceu recentemente. Como parte do acordo de comércio livre que a Europa assinou com a Índia, soubemos que parte deste acordo forneceu 500 milhões de euros à Índia para descarbonização.
Esta proposta acabou por ser bloqueada e acabo de escrever à Comissão. Não sou a favor desse financiamento até que a Índia tenha entregue uma NDC (contribuição climática nacional) de acordo com os seus compromissos e se comporte de forma um pouco diferente no tratamento que dispensa à União Europeia nas negociações.
P: Qual seria uma opção alternativa ao formato COP?
R: “Não estou dizendo que devemos removê-los, estou simplesmente dizendo que precisamos pelo menos rever nosso posicionamento dentro dessas COPs.
Se as COP acabarem por se tornar o Davos do clima, então os países que quiserem continuar a avançar deverão poder reunir-se noutros locais para assumir compromissos que lhes digam respeito. E estou a pensar em particular na libertação de fósseis.
Podemos muito bem estabelecer grandes coligações.
Por exemplo, haverá uma reunião no final de Abril na Colômbia sobre a saída dos combustíveis fósseis, organizada conjuntamente pela Colômbia e pelos Países Baixos. Suponho que os países que participam nesta reunião queiram avançar neste assunto. Vamos contar aqueles que estão lá.”