Danos seu ensaio O animal mais baixo (“O Animal Inferior”) (1896), o escritor americano Mark Twain conta a história de um conde inglês que caçava bisões nas grandes planícies americanas. Ao meio-dia, seu rebanho já havia abatido 72 bisões. Seus servos pegam um pedaço de um dos animais, grelham na perfeição e servem ao seu senhor um filé mignon perfeito. Todas essas lindas pessoas voltaram então para seu hotel em Lincoln, no estado de Nebraska, deixando 71 carcaças inteiras apodrecendo no local, além de uma mal aberta. Para determinar o que distingue um animal sanguinário de um ser humano civilizado, Twain visita o Jardim Zoológico de Londres e introduz sete bezerros na gaiola da anaconda.
“O réptildiz o etólogo experimental, imediatamente correu para um dos bezerros e engoliu-o, depois deitou-se satisfeito. A partir de então, ele não demonstrou mais interesse pelos outros seis bezerros, nem disposição para prejudicá-los. » Moralidade da fábula: um aristocrata inglês é bárbaro, uma cobra brasileira é racional. A natureza conhece a violência gratuita e até o sadismo. Assim, as moscas adoram arruinar a vida de todos os mamíferos, exceto baleias, golfinhos e morcegos. Mas esta inclinação é extremamente rara entre os não-humanos.
Contudo, é a natureza que nos parece uma arena de confronto perpétuo entre criaturas hobbesianas. [du philosophe anglais du XVIIe siècle Thomas Hobbes, qui écrivait : « l’homme est un loup pour l’homme »] onde prevalece a lei do mais forte. O que poderia ser mais instintivamente consensual do que esta “verdade”? E o que poderia ser mais óbvio do que assimilar à “lei da selva” o comportamento dos grandes predadores dos quais o presidente americano, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, aparecem como tipos completos? Tal é o efeito perverso do darwinismo, uma ciência única cooptada por inúmeros campos e disciplinas distantes do seu campo de especialização. O naturalista e paleontólogo britânico Charles Darwin (1809-1882) nada teve a ver com isso, é claro, mesmo que, como veremos, um aspecto particular da sua teoria possa ter sido passível de abuso.
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