Sem fogão nem frigorífico por falta de energia, alojamento em hotel ou com local, roupa lavada nas casas dos vizinhos: uma vida nova e cansativa está a ser organizada para as vítimas das cheias em Saintes (Charente-Maritime), onde o temporário está definido para durar.

A água chegou sexta-feira de manhã ao pátio desta enfermeira de 50 anos, que mora sozinha com o filho de 6 anos, ao pé da sua sala. “Até agora, esta parte estava seca, enquanto a outra ala da minha casa já está com menos de 40 centímetros de água desde quarta-feira”, diz ela, sem querer dar o primeiro nome.
A sua casa, sem eletricidade, é uma das 1.380 casas inundadas nesta cidade de 25 mil habitantes desde o início das cheias de Charente, que deverão aumentar ainda mais no sábado (6,53 m previstos em vez de 6,50 m na sexta-feira), segundo a Câmara Municipal.

Para ajudá-la a levantar os móveis, ela contatou a prefeitura, que na sexta-feira enviou agentes e voluntários da reserva cidadã para colocar blocos de concreto embaixo da máquina de lavar, mesas e outros armários.
“Felizmente eles estão lá”, saúda a vítima, que continua sorrindo apesar do “cansaço nervoso” e da “angústia interior”.
Na noite de sexta-feira, ela e o filho tiveram que dormir em um hotel coberto pelo seguro, a “600 metros a pé” de sua casa. “Vai permitir que tomemos um banho quente. Fui lavar a roupa na casa do meu vizinho. Estamos nos organizando. Temos que fazer isso porque sei que não terei luz por dez ou quinze dias”, prevê.
– “É complicado comer” –

Adrien, 45 anos, dorme no hotel desde quarta-feira com Amaïa, sua filha de 14 anos. “Estamos alojados até domingo, já é isso. Não somos dos que mais nos queixamos. Mas é complicado comer porque não temos fogão nem frigorífico. Compramos coisas prontas mas é caro”, afirma no centro implantado pela Cruz Vermelha num ginásio municipal.
Este pai procura alojamento de emergência a partir de segunda-feira, início do ano letivo. “Ficaria por minha conta, dormiria no meu carro. Mas não com a minha filha”, testemunha. O colégio Amaïa não está inundado. “Mas teremos que ir buscar as aulas de barco, elas ficaram na nossa casa inundada”, explica.

O acesso a três escolas em Saintes foi impossibilitado pela enchente. Seus alunos serão distribuídos para outros estabelecimentos, anunciou a prefeitura na noite de sexta-feira. São esperadas interrupções no transporte escolar das crianças das comunidades vizinhas.
– “Gerenciar a crise ao longo do tempo” –
A poucos quilômetros de Saintes, o fundo do Chaniers está submerso. Na manhã de sexta-feira, o Charente atingiu 7,57 m nesta cidade de 3.700 habitantes. A lápide afixada num muro que recorda a cheia histórica de 1982 a 7,73 m já não está tão distante.
“A nossa dificuldade é gerir a crise ao longo do tempo. O declínio ainda não chegou. Vai demorar muito até que as pessoas possam regressar a casa. Quem está com a família ou amigos ainda está bem. Mas para alguns já existem muitas tensões, nomeadamente financeiras”, sublinha o autarca, Éric Pannaud.

Patrick, 77 anos, foi evacuado de sua casa na manhã de quinta-feira com seu filho de 48 anos e seu cachorro. Seu alojamento é banhado por 1,20 m de água. “Tenho a sorte de ser alojado temporariamente pelos proprietários de um lindo castelo localizado mesmo ao lado. Estou bem de vida mas sinto-me vazio por dentro, como se não tivesse mais nada”, confidencia este morador de Chaniers, que ainda não sabe, como muitos, quanto tempo demorará a regressar a casa.