
Os voos de longa distância são um verdadeiro tormento para o corpo. Não apenas por causa dos assentos cada vez mais pequenos nos aviões. Mas sobretudo pela diferença horária, que atrapalha o nosso relógio interno. Isto sincroniza a fisiologia do nosso corpo com os ritmos naturais do nosso ambiente, em particular com o ciclo dia/noite. Mas, quando esse ciclo muda repentinamente, por exemplo, ao cruzar vários fusos horários em poucas horas, nosso corpo fica desorientado. Isso causa fadiga e outros sintomas comuns de jet lag, que duram tantos dias quantas horas de diferença (cerca de seis dias de ajuste para cada seis horas de diferença, por exemplo).
E esta lacuna é ainda mais significativa quando viajamos para leste, porque o dia encurta e apanha os nossos ciclos circadianos de surpresa. Felizmente, investigadores das universidades japonesas de Osaka, Toyohashi, Kanazawa e do Instituto de Ciência de Tóquio parecem ter encontrado uma solução: uma molécula que avança o nosso relógio interno para que se ajuste mais rapidamente ao novo ciclo dia/noite. Sua descoberta, apresentada em 23 de janeiro de 2026 na revista PNAStambém pode ser útil para pessoas que trabalham em turnos noturnos, que podem enfrentar problemas semelhantes aos associados às viagens aéreas.
Uma molécula que avança artificialmente o relógio interno
A molécula, denominada Mic-628, atua na proteína Period1 (ou Per1), que é fundamental na regulação dos ciclos circadianos em todo o corpo. Esta proteína é particularmente expressa no cérebro, ao nível do núcleo supraquiasmático no hipotálamo, a estrutura que gerencia o sono, a temperatura corporal, o estado de alerta e outras funções cíclicas do corpo. Sua função é, basicamente, avisar ao corpo que o dia está avançando, para que o relógio interno avance também. O ciclo Per1 é autorregulado: a expressão desse gene é ativada pela luz, o que leva à produção da proteína, mas quando começa a se acumular, ele próprio inibe a expressão do gene, causando queda na produção da proteína. lá proteína. A expressão deste gene também é regulada pela proteína criptocromo1, que bloqueia esse processo.
Porém, Mic-628 modifica este ciclo, forçando a expressão de Per1 em dois níveis. Primeiro, interage com a proteína criptocromo1, impedindo-a de bloquear a expressão de Per1. Além disso, esta interação entre as duas moléculas facilita a montagem de outro complexo proteico (formado pelas proteínas Clock e Bmal1) que reforça a expressão genética do gene Per1. Melhor ainda: a ativação torna-se mais resistente ao efeito inibitório do acúmulo de proteínas no Período1. Pode, portanto, acumular mais, avançando ainda mais o relógio interno. Assim, o Mic-628 ativa o Período1, fazendo com que o corpo acredite que houve mais horas de luz do que realmente houve, reduzindo a diferença horária causada quando o dia encurta devido a uma viagem para o leste.
O tempo de adaptação é quase reduzido pela metade
O poder anti-jet lag do Mic-628 foi confirmado em camundongos expostos a mudanças no ciclo diurno-noturno. O seu ciclo de luz começou agora seis horas mais cedo do que o habitual, causando um jet lag que exigiu sete dias de adaptação nos ratos não tratados. Isto equivaleria ao atraso causado por uma viagem de avião do México para França. A molécula permitiu que os ratos voltassem às suas atividades físicas normais em apenas quatro dias, de modo que o tempo de adaptação foi reduzido quase pela metade. O suficiente para tornar a vida um pouco mais fácil durante um voo de longa distância.
Os autores esperam que o Mic-628 possa tornar-se uma “droga inteligente” para mitigar os danos do jet lag e planeiam estudos mais aprofundados em animais antes de testá-lo em humanos. Por outro lado, esse truque só funcionaria para adiantar o relógio interno, mas não para atrasá-lo. Ou seja, só serviria para viagens para leste, que encurtam o dia, e não para oeste. Para o regresso, mas não para a viagem de ida. Ao mesmo tempo, a viagem mais difícil de gerir é aquela que sinaliza… o fim das férias!