Ruas entupidas de lixo, aterros saturados e poucas soluções de curto prazo: Jacarta, a metrópole mais populosa do mundo, enfrenta uma crise de resíduos que piora a cada ano.
A capital indonésia e as suas cidades satélites albergam 42 milhões de pessoas que produzem 14 mil toneladas de resíduos por dia, colocando uma pressão crescente sobre os oito aterros sanitários da região, quase todos saturados.
“O cheiro é terrível, muito forte. Também é desagradável de olhar”, lamenta Nurhasanah, vendedor num mercado no sul da metrópole e que, como muitos indonésios, tem apenas um nome.
Perto de sua barraca de café e salgadinhos, latas de lixo se amontoam, assustando os clientes.
Segundo os especialistas, o crescimento populacional, o aumento dos rendimentos que leva ao aumento do consumo e a falta crónica de controlo sobre a triagem e eliminação de resíduos explicam esta crise.

Até o gigantesco aterro sanitário de Bantar Gebang, um dos maiores aterros a céu aberto do mundo, que cobre mais de 110 hectares e contém cerca de 55 milhões de toneladas de resíduos, já está saturado, segundo a mídia local.
– Enxames de moscas –
Em Tangerang Sul, a sudeste de Jacarta, os pedestres, vomitando, afugentam enxames de moscas nas ruas repletas de lixo.

“Nós, os cidadãos, pagamos impostos, certo? Então, por que o governo se comporta assim? A gestão de resíduos deveria ser sua responsabilidade”, diz Muhammad Arsil, um mototaxista de 34 anos.
Segundo outra moradora, Delfa Desabriyan, as pessoas jogam o lixo na rua porque o lixão local está cheio. “Francamente, é irritante. E quando queremos comer, perco o apetite. O cheiro é simplesmente repulsivo”, diz este vendedor de 19 anos.
O aterro local só pode acomodar 400 toneladas de resíduos, muito menos do que as 1.100 toneladas produzidas diariamente, segundo as autoridades locais.
Mas o problema ultrapassa os limites da capital. O presidente Prabowo Subianto alertou que quase todos os aterros sanitários do país estarão saturados até 2028.
Centenas de pessoas continuam a usar lixões abertos ilegais. Os resíduos são frequentemente queimados, libertando partículas potencialmente perigosas que contribuem para a poluição crónica do ar nas principais cidades do país.

Em 2022, uma pilha de lixo de 30 metros em Cipayung causou um deslizamento de terra que destruiu uma ponte. “Se o lixo continuar a acumular-se, os que estão em cima acabarão por deslizar novamente”, teme Muhammad Rizal, morador do bairro entrevistado pela AFP.
Outro deslizamento de resíduos matou 143 pessoas em 2005, noutro aterro em Cimahi, Java Ocidental, causado por uma explosão de metano e fortes chuvas.
– “Investimento substancial” –
O governo afirma que planeia fechar permanentemente vários aterros, incluindo Tangerang South e Cipayung, para lançar 34 projectos planeados dentro de dois anos.
“Este é um investimento substancial, quase 3,5 mil milhões de dólares (2,9 mil milhões de euros), disse Prabowo na semana passada.

Mas, diz Wahyu Eka Styawan, da ONG WALHI, as fábricas planeadas não resolverão o problema da falta de triagem e reciclagem.
“É um problema complexo, uma mistura de falta de consciência, políticas inadequadas e uma certa inconsistência na implementação da gestão de resíduos”, disse à AFP.
É necessária uma reforma do sistema de gestão de resíduos, embora este ainda se baseie no modelo recolha-transporte-eliminação, sem favorecer a redução ao nível dos agregados familiares, acrescenta.
Questionada pela AFP, a Agência Ambiental de Jacarta não respondeu.
Para Nur Azizah, especialista em gestão de resíduos da Universidade Gadjah Mada, em Yogyakarta, a falta de educação da população por parte das autoridades e a ausência de aplicação da lei explicam em parte esta situação.
“O problema está nos padrões de consumo, por isso devemos corrigir a nossa forma de consumir”, recomenda.