Gus Van Sant retorna à sua veia dominante, a de Will Hunting e Harvey Milk, para contar a vida do cartunista deficiente John Callahan.

Enquanto espero para encontrar Joaquin Phoenix em Coringa 2Arte oferecerá esta noite Não se preocupe, ele não irá longe a pé (2018), pela primeira vez em condições claras. Encontro às 22h30, após Primeiro anoou no site do canal para assista gratuitamente no replay. Aqui está a revisão de Primeiro.

Não se preocupe, ele não irá longe a pé, a verdadeira história por trás do filme

Exceto por sua participação na série Quando nos levantamos (sobre a história das lutas LGBTQ), Gus Van Sant ficou em má posição, sob as vaias da multidão selvagem, no momento da catastrófica apresentação em Cannes de Nossas memórias em 2015. Um fiasco. Mas o cineasta camaleão tem pele dura e se recupera hoje como se nada tivesse acontecido com esse lindo Não se preocupe, ele não irá longe a péque o faz retornar à sua inspiração mainstream mais alegre e amigável. Atrás do título para dormir fora (“Não se preocupe, ele não irá longe a pé.”) esconde uma história verídica: a de John Callahan, cartunista de Portland, Oregon (eterno quartel-general da GVS), um homem tempestuoso e com um passado movimentado (abandonado pela mãe, alcoólatra desde os 12 anos, ficou tetraplégico após um acidente de viação), cujo destino nos é contado num caleidoscópio quente, cheio de cores quentes outonais, um turbilhão inebriante que dá vontade de aplaudir a tela e apertar seu vizinho de fila nos braços. O filme narra a longa luta contra o vício de Callahan (Joaquin Phoenix), seu encontro com um grupo de apoio liderado por um carismático guru gay (Jonah Hill), e chega a assumir tons quase evangélicos quando elogia a eficácia dos “12 passos” de Alcoólicos Anônimos e os benefícios do perdão.

Todos sorrisos
Parece um pouco meloso dizer isso, mas essas explosões de bondade são felizmente contrabalançadas pelo humor covarde de Callahan, suas piadas sarcásticas, seu gosto pela provocação e seu comportamento às vezes detestável – cinebiografias só de sorrisos raramente são dedicadas a esses idiotas. Segundo o que Van Sant mostra, Callahan adorava andar por Portland com seus desenhos debaixo do braço, parando os transeuntes (skatistas, policiais, velhinhas, etc.) para pedir-lhes que reagissem a esses desenhos, ofendendo-os em determinados momentos, fazendo-os rir dos outros, buscando unir a comunidade – uma comunidade da qual há muito se sentia rejeitado – com suas piadas indelicadas e suas observações sociológicas carinhosamente desenhadas. Os artistas de Van Sant (a imitação de Salinger interpretada por Sean Connery em Conheça a Forrestero clone de Kurt Cobain em Últimos dias…) eram até agora eremitas, reclusos. Não Callahan, o satírico que perambulava pela cidade em sua cadeira de rodas, armado com seu humor negro e comentários politicamente incorretos. O filme deveria ter sido originalmente rodado nos anos 90, mas o facto de chegar hoje, num mundo onde os cartunistas da imprensa se tornaram alvos humanos, sem dúvida lhe confere uma ressonância ainda maior.

Desajustados
O que Gus Van Sant conta através da jornada de John Callahan é como a contracultura une energias e salva vidas. Para o cineasta basta um plano de dois homens se beijando em um banco, quase filmado na hora, para de repente fazer pulsar no fundo de seu filme todo um submundo de marginalizados, rebeldes e deixados para trás. Joaquin Phoenix aproveita a oportunidade para prosseguir aqui uma busca cinematográfica muito pessoal, repleta de personagens semelhantes a Callahan, perdido entre Deus e os seus demónios (o Johnny Cash de Ande na linha) e atravessando a existência como marionetes quebradas e desarticuladas (O Mestre). Da mesma forma que Leite Harvey foi uma obra de combate disfarçada de filme do Oscar, Não se preocupe, ele não irá longe a pé celebra os desajustados e os amaldiçoados sob o exterior reconfortante de uma fábula bonita e benevolente. É um hino punk tocado com um arranjo de soft-rock. Um manifesto contracultural, sim, mas que não pretende excluir ninguém.

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