Zonca assina um filme caótico mas emocionante, dominado pela composição maior que a vida de Vincent Cassel.
Lançado em julho de 2018, Rio Negro dividiu os críticos. Você pode formar sua própria opinião assistindo esta noite de segunda-feira na França 3.
Poderia ser esta a passagem dos cinquenta? Depois Gauguin – Viagem ao Taiti e antes O mundo é seudois filmes em que assume a idade exagerando a fala (cansada), o extravagante Vincent Cassel fica irreconhecível neste thriller do fantasma Erick Zonca: ligeiramente corcunda, com cabelos oleosos, barba suja, olhos inchados, interpreta um comandante de polícia alcoólatra e imundo (François Visconti, que nome!) ao lado de quem os anti-heróis depressivos de Olivier Marchal quase pareceriam anjos. Cassel devora a tela mesmo que isso signifique se tornar o objeto principal e relegar o resto para segundo plano. É a suposta singularidade de um filme hostil em que todos torcem o nariz e usam uma máscara mais ou menos opaca: a da mãe sofredora de Kiberlain (ela relatou o desaparecimento do filho que Visconti investigará) e a do vizinho intrusivo de Romain Duris (o ex-professor particular do desaparecido).
Ambíguo à vontade
Assim como Marchal, mas menos caricaturado, Zonca privilegia histórias baseadas em personagens em detrimento da trama um tanto flutuante – certos caminhos narrativos como o mergulho do filho de Visconti no tráfico de drogas não são resolvidos. O risco de estagnação é grande, mas a relação cada vez mais complexa entre Cassel e Kiberlain alimenta um fascínio crescente por este frágil thriller cujo desfecho um tanto vertiginoso chega no momento certo para recompensar o espectador assíduo.
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