
O chefe da ONU para o Clima, Simon Stiell, apelou na quinta-feira à “união” face à “ameaça sem precedentes” à cooperação internacional, numa altura em que o presidente norte-americano, Donald Trump, aumenta os seus ataques ao clima e à diplomacia.
“A COP31 em Antalya (Turquia) terá lugar num contexto extraordinário. Encontramo-nos numa nova desordem global”, alertou Simon Stiell durante um discurso na Turquia, país que acolherá a cimeira mundial do clima, de 9 a 20 de novembro, durante a qual a Austrália liderará as negociações.
Embora afirmando que “é difícil imaginar uma década em que a cooperação climática internacional tenha alcançado progressos mais concretos”, Stiell disse que “também enfrenta uma ameaça sem precedentes”.
Esta ameaça vem “daqueles que estão determinados a usar o seu poder para desafiar a lógica económica e científica e aumentar a dependência do carvão, petróleo e gás poluentes”, continuou, sem nomear nenhum país em particular, durante este discurso proferido em Istambul na presença do ministro turco do Ambiente, Murat Kurum, e do presidente da COP30, André Correa do Lago.
O responsável da ONU para o Clima referiu ainda “a força das armas” e as “guerras comerciais” que geraram “uma nova desordem global”, num período em que a administração norte-americana aumenta os ataques às políticas ambientais e ao multilateralismo.
– Reviravolta americana –
O Presidente norte-americano, Donald Trump, que desde o seu regresso ao poder iniciou uma grande reviravolta nas questões ambientais, deve revogar na quinta-feira um texto que serve de base ao combate às emissões de gases com efeito de estufa nos Estados Unidos, depois de abandonar o acordo de Paris de 2015 sobre o clima assim que tomar posse.
Esta reviravolta, contra a qual protestam cientistas e defensores do ambiente, deve ser associada à eliminação das normas de emissões de gases com efeito de estufa para os veículos.
Donald Trump chama o aquecimento global de “a maior fraude da nossa história” e elogia o carvão e o petróleo “limpos e bonitos”.
Além da guerra comercial global lançada no ano passado, ele também ameaçou a soberania europeia ao expressar o seu desejo de adquirir a Gronelândia, numa altura em que o derretimento do gelo do Árctico está a transformar a região num campo de batalha estratégico.
Quando Washington se retirou, em Janeiro, da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNCCC), um tratado climático de referência, Stiell já tinha mencionado um “objectivo colossal” dos Estados Unidos.
“A porta continua aberta para o retorno dos Estados Unidos”, comentou Stiell sobriamente na quinta-feira.
A política climática do segundo maior emissor mundial de gases com efeito de estufa é tanto mais preocupante quanto o termómetro global apresenta há três anos níveis nunca antes vistos à escala humana, com uma média ao longo do período 1,5°C superior à do período 1850-1900, segundo o Instituto Europeu Copernicus.
“Os países podem se unir”, disse Stiell na quinta-feira, pedindo maior colaboração “com empresas, investidores e líderes regionais e cívicos” e o desenvolvimento de “coalizões de interessados”, como iniciativas tomadas durante a COP30 no Brasil.
“Qualquer retrocesso na acção climática global é absolutamente inaceitável”, disse o ministro turco Murat Kurum num discurso, acrescentando que a Turquia daria uma agenda mais precisa para a organização da COP31 em Março.
Numa altura de profunda turbulência geopolítica global, o Sr. Stiell disse que “segurança é a palavra que surge com mais frequência na boca dos líderes, mas muitos apegam-se a uma definição perigosamente restritiva”.
“Para qualquer líder que leve a segurança a sério, a ação climática é uma missão crítica, uma vez que os efeitos do clima causam estragos em todas as populações e economias”, alertou.