
Que nova política energética para a França em 2035? O governo notou na quinta-feira uma estagnação no consumo de eletricidade, o que o leva a desacelerar a implantação da energia eólica e solar em terra, juntamente com um relançamento massivo da energia nuclear.
Neste 3.º Programa Plurianual de Energia, tema de intenso debate durante três anos, apresenta um plano “ambicioso” para relançar este consumo, promovendo a utilização de eletricidade livre de carbono, nomeadamente de origem nuclear, em vez de combustíveis fósseis, cuja importação é dispendiosa.
A publicação deste documento estratégico para o período 2025-2035 permitirá aos intervenientes do setor lançar os seus projetos e antecipar as necessidades de investimento, competências e emprego.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu discutirá este programa na quinta-feira com vários ex-ministros, parlamentares e profissionais durante uma viagem às barragens hidroelétricas de Saut-Mortier e Vouglans, no Jura.
Este roteiro, que deverá ser publicado em decreto no Diário Oficial na manhã de sexta-feira, detalha a parcela que caberá a cada setor na produção de energia nos próximos dez anos: quanto será para nuclear, eólico, solar, hidráulico, etc.
“O PPE3 estabelece um rumo claro: aumentar a produção de energia livre de carbono, nomeadamente eletricidade, e reduzir o consumo de combustíveis fósseis”, indica o documento de apresentação do PPE.
O governo fixa uma meta para a produção de eletricidade livre de carbono em 2035 “em estreita ligação com o crescimento da eletrificação dos usos”, ou seja, a passagem de setores dependentes de combustíveis fósseis (gás, petróleo) para a eletricidade, como os transportes com veículos elétricos, os edifícios com bombas de calor ou a indústria com fornos elétricos, por exemplo.
“Em 2023, consumimos quase 60% da energia fóssil final. O nosso objetivo é consumir apenas 40% em 2030”, sublinha o documento, que fala em “inverter” a quota dos fósseis com a das renováveis.
O PPE3 prevê assim um relançamento da energia nuclear, rompendo com o anterior (2019-2024), que previa o encerramento de 14 reatores, com “otimização” da frota existente a partir de 2030 e uma produção de 380 a 420 terawatts-hora (TWh) contra 320 em 2023, enquanto a elétrica pública EDF tinha como meta 400 TWh.
Aposta também numa aceleração da energia eólica offshore, mas com um ligeiro desfasamento nos objectivos até agora atribuídos a este sector, constatando os atrasos observados na sua implantação.
Por outro lado, os setores eólico e solar onshore sofrem com a estagnação da procura de eletricidade, com objetivos inferiores ao previsto na versão do PPE submetida a consulta pública em março passado.
– “Dependência geopolítica” –
O PPE3 prevê uma “prossecução fundamentada do desenvolvimento de energias elétricas renováveis terrestres”, cujos objetivos de instalação “foram ajustados para ter em conta a evolução do consumo de eletricidade nos últimos anos”, indica o documento.
No entanto, estão alinhados com um dos cenários mais favoráveis estabelecidos em dezembro passado pela RTE, gestora da rede elétrica de alta tensão, que reviu em baixa as suas previsões para o consumo de eletricidade em França até 2030.
Representantes do setor das energias renováveis, que se reuniram com Sébastien Lecornu na última sexta-feira, esperavam que o governo não fosse abaixo destes cenários.
A energia solar deverá produzir 48 gigawatts de eletricidade até 2030, em comparação com 54 no PPE colocado em consulta pública em março passado, e a energia eólica onshore 31 GW, em comparação com 33 em março.
O texto deu origem a debates acirrados na classe política entre os defensores da energia exclusivamente nuclear e os que são a favor de um cabaz energético que dê lugar de destaque às energias renováveis, nomeadamente à energia solar e eólica.
O chefe do LR Bruno Retailleau e a líder dos deputados RN Marine Le Pen pediram ao governo que desistisse de publicá-lo.
“O +verdadeiro erro+ seria não fazer nada”, respondeu Sébastien Lecornu a Marine Le Pen no X, apontando a “dependência geopolítica” dos hidrocarbonetos que se tornaram “perigosos”.
O RN voltou a denunciar na quinta-feira “as consequências devastadoras” do PPE, com “um prestidigitação à energia eólica”, mas não anunciou a censura governamental como outrora ameaçou.
À esquerda, Marine Tondelier (Les Ecologistes) expressou o seu “alívio pelo facto de o sector finalmente ter instruções e de estas instruções não serem uma moratória sobre as energias renováveis”, no TF1.