Perante o risco de um agravamento dramático da crise energética em Cuba, os habitantes de Havana tentam proteger-se: reservas de carvão para alguns ou painéis solares para quem pode pagar.

Ao longo de uma estrada nos arredores da capital cubana, alguns vendedores vendem carvão no asfalto e alguns braseiros caseiros, alguns feitos com velhos tambores de máquinas de lavar.

“Todos sabem o que nos espera agora. Não temos combustível no país, temos que encontrar alternativas”, disse à AFP Niurbis Lamothe Robert, funcionário público de 53 anos, que acaba de comprar um fogão a carvão.

“A situação tornou-se ainda mais complicada”, diz outro comprador, que prefere permanecer anónimo, olhando para um saco de carvão por 2.600 pesos (5,25 dólares), ou quase 50% do salário médio cubano.

Yurisnel Agosto, carvoeiro de 36 anos, prepara sacos de carvão para venda em uma estrada em Havana, 6 de fevereiro de 2026 (AFP - ADALBERTO ROQUE)
Yurisnel Agosto, carvoeiro de 36 anos, prepara sacos de carvão para venda em uma estrada em Havana, 6 de fevereiro de 2026 (AFP – ADALBERTO ROQUE)

Esta mãe de uma menina explica que o seu salário não lhe permite comprar um gerador ou uma pequena bateria de lítio para fazer face às longas horas de cortes de energia. “Esta é a opção mais acessível”, diz ela, carregando um saco de carvão em sua motocicleta elétrica.

Yurisnel Agosto, 36 anos, confirma que nunca vendeu “tanto” carvão. Até agora seus principais clientes eram pizzarias ou restaurantes especializados em grelhados, mas agora cada vez mais pessoas compram para casa.

“As pessoas vêm e compram três sacos para preparar caso não haja luz”, afirma, já que a falta de energia impede o uso de fogões eléctricos e o país sofre com a escassez de garrafas de gás.

Cuba viu a sua situação económica deteriorar-se significativamente nos últimos seis anos, com escassez de todos os tipos, cortes de electricidade e de combustível que pioraram nos últimos dois anos.

Agora, o estrangulamento energético decidido pelos Estados Unidos, que já impõem um embargo à ilha comunista há mais de 60 anos, suscita receios do pior.

– “Desesperado” –

Homens vendem braseiros caseiros em uma estrada nos arredores de Havana, 6 de fevereiro de 2026 (AFP - ADALBERTO ROQUE)
Homens vendem braseiros caseiros em uma estrada nos arredores de Havana, 6 de fevereiro de 2026 (AFP – ADALBERTO ROQUE)

Os cubanos, alguns dos quais já viveram o “Período Especial”, a gravíssima crise económica que se seguiu à queda em 1991 da URSS, então principal fornecedor de petróleo a Cuba, estão a tentar adaptar-se, obrigados a reorganizar constantemente a sua vida quotidiana.

O anúncio da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, cujo país assumiu o envio de petróleo para Cuba a partir dos anos 2000, fez soar o alarme num país que, antes do golpe de Washington, já lutava para satisfazer metade das suas necessidades de eletricidade.

Os mais ricos vêem agora a sua salvação nos painéis solares, cujas empresas instaladoras se multiplicaram desde 2024, em particular graças às instalações de importação abertas pelo governo cubano.

“As pessoas estão desesperadas, querem encontrar uma solução”, disse à AFP Reinier Hernandez, 42 anos, proprietário de uma empresa privada de instalação de sistemas solares que enfrenta uma procura exponencial há um mês.

Desde meados de janeiro, ele mal dorme, entre telefonemas, preparando orçamentos e organizando o trabalho dos seus vinte funcionários que trabalham longos dias, inclusive finais de semana.

“Nem consegui descansar nas últimas duas semanas”, confirma Orley Estrada, líder da equipe de 30 anos. “Às vezes chego em casa à uma da manhã” e “há sempre mais clientes ligando o tempo todo”, diz ele.

Irmã Gertrudis Abreu, freira dominicana radicada em Cuba, agradece a Deus diante de um novo sistema de painéis solares instalado no telhado de uma cantina para indigentes administrada pela Igreja Católica, no bairro Guanabacoa, em Havana, em 4 de fevereiro de 2026 (AFP - ADALBERTO ROQUE)
Irmã Gertrudis Abreu, freira dominicana radicada em Cuba, agradece a Deus diante de um novo sistema de painéis solares instalado no telhado de uma cantina para indigentes administrada pela Igreja Católica, no bairro Guanabacoa, em Havana, em 4 de fevereiro de 2026 (AFP – ADALBERTO ROQUE)

No bairro de Guanabacoa, no leste de Havana, os trabalhadores estão ocupados instalando 12 painéis solares no telhado de uma casa para idosos gerida pela Igreja Católica. As freiras poderão preparar alimentos para cerca de 80 idosos pobres ou desabrigados.

“Sem eletricidade não tínhamos solução”, disse à AFP irmã Gertrudis Abreu, freira dominicana que cuida da casa e que pediu doações para arrecadar os 7 mil dólares necessários para a instalação.

Mas se a menor instalação solar proposta pela empresa de Reinier Hernández custa 2 mil dólares, está longe de estar ao alcance de todos os cubanos.

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