O Chile lança terça-feira o Latam-GPT, uma iniciativa que visa dotar a América Latina de um modelo próprio de inteligência artificial para limitar certos estereótipos, num setor dominado por grupos dos Estados Unidos.

Coordenado pelo Centro Nacional de Inteligência Artificial (Cenia) do País Andino, entidade privada financiada com recursos públicos, o projeto reúne instituições de pelo menos 15 países da região.

Os parceiros incluem universidades, fundações, bibliotecas, entidades governamentais e organizações da sociedade civil do Uruguai, Brasil, Colômbia, México, Peru, Equador, Argentina e Chile.

Apesar do nome, o Latam-GPT não é um agente conversacional destinado ao público em geral como o ChatGPT, desenvolvido pela empresa norte-americana OpenAI e amplamente utilizado em todo o mundo.

É um modelo linguístico que serve de base para aplicações regionais, acessível como código aberto e gratuito para empresas e instituições públicas.

A Latam-GPT pretende quebrar certos “preconceitos” e evitar uma representação uniforme da América Latina no mundo, disse à AFP o ministro chileno da Ciência, Aldo Valle.

A região “não pode ser apenas uma usuária passiva ou receptora de sistemas de inteligência artificial. Isto poderia levar à perda de grande parte das nossas tradições”, acrescenta.

Ao solicitar representar “um chileno” no ChatGPT, o agente gerou a imagem de uma pessoa com roupas tradicionais indígenas em frente à cordilheira dos Andes, ilustrando os estereótipos que os promotores do projeto dizem querer reduzir.

Segundo eles, este tipo de representação se explica principalmente por uma sub-representação dos dados latino-americanos em determinados sistemas de inteligência artificial.

“Os modelos desenvolvidos em outras regiões do mundo, embora integrem dados da América Latina, representam apenas uma proporção relativamente pequena”, disse Álvaro Soto, diretor do Cenia, à AFP.

– Limites –

Se o desenvolvimento de grandes modelos de IA continuar a ser largamente dominado por intervenientes baseados nos Estados Unidos, na China e na Europa, iniciativas regionais, incluindo o Latam-GPT, mas também o SEA-LION no Sudeste Asiático ou o UlizaLlama em África, estão a tentar adaptar estas tecnologias a contextos culturais específicos.

Capacitado em mais de oito terabytes de dados, volume equivalente a milhões de livros, o Latam-GPT foi desenvolvido com financiamento de US$ 550 mil, principalmente do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) e recursos próprios.

O centro financeiro de Santiago, Chile, 5 de setembro de 2025 (AFP/Arquivos - RODRIGO ARANGUA)
O centro financeiro de Santiago, Chile, 5 de setembro de 2025 (AFP/Arquivos – RODRIGO ARANGUA)

Para alguns especialistas, contudo, esta lacuna de recursos com grandes projectos internacionais constitui uma grande limitação.

“Não há possibilidade de que (Latam-GPT) possa competir com grandes modelos de IA”, garante à AFP Alejandro Barros, professor do departamento de engenharia industrial da Universidade do Chile.

Para o académico, os grandes projetos internacionais têm “centenas de milhões de dólares, ou em alguns casos milhares de milhões de dólares, para infraestruturas”.

Apesar destas limitações, os responsáveis ​​pelo projeto destacam as suas potenciais aplicações. Segundo o diretor do Cenia, o Latam-GPT poderia servir principalmente de base para ferramentas adaptadas aos setores de saúde ou de serviços públicos.

– “Gíria” –

“Alguns hospitais da região enfrentam problemas logísticos ou de utilização de recursos médicos. Os dados para dar uma solução não se encontram em nenhum outro lugar do mundo, estão aqui”, explica.

Uma das primeiras empresas a utilizar o Latam-GPT será a chilena Digevo, que planeja desenvolver robôs conversacionais especializados em atendimento ao cliente, principalmente para companhias aéreas.

As empresas clientes “estão muito interessadas que seus usuários possam se expressar e receber respostas em seu idioma”, disse Roberto Musso, diretor da empresa, à AFP. Segundo ele, o Latam-GPT poderia reconhecer melhor “gírias (e) expressões idiomáticas”, limitando assim certos vieses presentes em outros modelos de IA.

Atualmente, os dados utilizados para treinar o modelo estão principalmente em espanhol e português, mas o projeto planeja integrar gradualmente as línguas indígenas.

A primeira versão do Latam-GPT foi desenvolvida na infraestrutura de nuvem da gigante Amazon Web Services, antes de uma transferência planejada para um supercomputador a ser instalado na Universidade de Tarapaca, no norte do Chile, ao custo de cinco milhões de dólares.

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