Irão os eurodeputados pôr fim a uma disputa de uma década com a Comissão Europeia? Uma proposta de lei sobre o futuro das barragens francesas deverá ser analisada na Assembleia na quarta-feira e, segundo os seus defensores, permitirá o relançamento do investimento neste sector estratégico.

O texto é aguardado com grande expectativa: em 2024, a hidroeletricidade representava a segunda fonte de produção de eletricidade depois da nuclear, e a primeira fonte renovável, antes da eólica e da solar, com a vantagem de poder ser armazenada.

Mas os investimentos, essenciais para estas obras por vezes envelhecidas, são atualmente impedidos devido a inseguranças jurídicas associadas a dois processos da Comissão Europeia contra a França.

A primeira, datada de 2015, diz respeito à posição dominante da EDF na hidroeletricidade, e a segunda, de 2019, sobre a ausência de reconcorrência pelas concessões caducadas.

A deputada do PS Marie-Noëlle Battistel discursa na Assembleia Nacional, em Paris, 12 de outubro de 2023 (AFP/Arquivos - Bertrand GUAY)
A deputada do PS Marie-Noëlle Battistel discursa na Assembleia Nacional, em Paris, 12 de outubro de 2023 (AFP/Arquivos – Bertrand GUAY)

Resultado: “muitos projetos de modernização e extensão” foram suspensos ou adiados, segundo a relatora do texto, Marie-Noëlle Battistel (PS).

O projeto de lei, também apoiado por Philippe Bolo (MoDem) e apoiado pelo governo, prevê medidas para pôr fim a estas disputas.

Mas encontra oposição dos deputados ambientalistas, LFI e RN, preocupados com o risco de privatização. O texto representa “uma grave perda de controle público sobre as barragens”, julga ainda o sindicato energético Solidaires e SUD.

A sua adoção em primeira leitura dependerá da “mobilização” no hemiciclo, estima Marie-Noëlle Battistel. Depois terá que ser examinado no Senado.

– Acordo de princípio –

Atualmente, as instalações hidroelétricas são maioritariamente exploradas em regime de concessão (mais de 340): as obras pertencem ao Estado, sendo a operação confiada a um operador por um período definido.

As duas principais concessionárias são a EDF (cerca de 70% da produção hidroelétrica) e a Compagnie nationale du Rhône (25%), segundo o Tribunal de Contas. Os contratos mais antigos, assinados pelo Estado no século passado, estão gradualmente a chegar ao fim.

A barragem Roselend perto de Beaufort, nos Alpes franceses, 5 de outubro de 2017 (AFP/Arquivos - JEAN-PIERRE CLATOT)
A barragem Roselend perto de Beaufort, nos Alpes franceses, 5 de outubro de 2017 (AFP/Arquivos – JEAN-PIERRE CLATOT)

No entanto, qualquer concessão deverá normalmente ser novamente colocada em concorrência. O que a França se recusa a fazer.

Foram realizadas negociações com a Comissão Europeia para chegar a um acordo de princípio no verão de 2025: estaria pronta para “encerrar o atual pré-contencioso, desde que a França adote uma reforma do regime jurídico” das instalações hidroelétricas, segundo Battistel.

O texto propõe uma solução: passar do regime de concessão para o de “autorização”.

O Estado terá, portanto, de recomprar estas concessões e compensar os operadores pela rescisão do seu contrato. Cabe a eles pagar então uma taxa de ocupação, destinada por 70 anos.

Esta solução lhes daria visibilidade, preservando ao mesmo tempo a propriedade do Estado.

A EDF diz querer dedicar entre 4 e 4,5 mil milhões de euros à modernização e desenvolvimento de obras hidroelétricas até 2035.

Mas os referidos sindicatos temem que os futuros operadores apenas façam “os investimentos mais rentáveis”, com “risco de abandonar outros” locais.

O Estado “está, portanto, abandonando a hidroeletricidade (…) ao critério dos operadores”, alarmou-se o deputado rebelde Matthias Tavel durante a análise da comissão.

– Contrapartes –

Mais criticada ainda: uma medida que prevê a abertura do mercado hidroeléctrico, pensada como uma compensação pela continuidade da existência de operadores históricos, de forma a compatibilizar o acordo com as exigências da concorrência europeia.

O texto prevê que pelo menos 40% da capacidade hidrelétrica seja leiloada pela EDF, com volume fixado em 6 gigawatts nos primeiros dez anos (AFP – Sameer Al-DOUMY)
O texto prevê que pelo menos 40% da capacidade hidrelétrica seja leiloada pela EDF, com volume fixado em 6 gigawatts nos primeiros dez anos (AFP – Sameer Al-DOUMY)

O texto prevê que pelo menos 40% da capacidade hidrelétrica seja leiloada pela EDF, com volume fixado em 6 gigawatts nos primeiros dez anos.

Recompensas sem as quais “teríamos feito bem”, reconheceu Battistel, que vê isto como “uma condição fundamental estabelecida” por Bruxelas

Este artigo foi amplamente debatido na comissão.

“Recusamo-nos a entregar energia estratégica financiada pelos franceses durante gerações às regras do mercado”, criticou o deputado do RN, Lionel Tivoli.

“Obrigar a EDF a ceder parte da sua produção hidráulica a concorrentes (…) é reproduzir os erros” do passado, julgou a ambientalista Julie Laernoes, em referência a um mecanismo de regulação dos preços da electricidade nuclear que terminou em Dezembro de 2025 (Arenh).

Este sistema negociado com Bruxelas exigia que a EDF vendesse parte da sua electricidade nuclear a um preço reduzido.

Mas, segundo Battistel, o texto, que entraria em vigor em setembro de 2026, desta vez “não tem nada a ver” e “nunca permitirá que a EDF “venda com prejuízo”.

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