Tetraplégico, acamado numa pré-fabricada médica no interior da China, Li Xia, 36 anos, só consegue mover um dedo da mão e um dedo do pé, com os quais gere uma quinta de alta tecnologia utilizando sensores, câmaras e um computador.
Com a traqueia ligada 24 horas por dia a um respirador artificial essencial à sua sobrevivência, sofrendo de uma doença genética incurável, ele cultiva aipo acima do solo com a ajuda da sua mãe de 62 anos.
De sua cama, a 10 metros de suas quatro estufas, ele olha para a tela do computador pendurada acima dele por um braço articulado.
“Graças a um programa que codifiquei e através de um aplicativo móvel, monitoro vários dados: temperatura, umidade, concentração da solução nutritiva e seu pH”, explica Li Xia.
“E com as câmeras observo se a bomba d’água está funcionando ou se os ventiladores estão funcionando.”
Para mover o cursor na tela, ele usa um mouse esférico (um “trackball”) com seu único dedo bom.
“Para clicar, uso um sensor de flexão preso ao dedo do pé”, explica à AFP Li Xia, residente na vila de Shiping, perto da metrópole de Chongqing (sudoeste).
A distrofia muscular de Duchenne (ou distrofia muscular) (DMD) da qual ele sofre é uma doença genética que afeta quase exclusivamente homens, nascendo um menino em cada 5.000.
Com o passar dos anos, os músculos enfraquecem, as quedas tornam-se frequentes e depois a paralisia aumenta, afetando a atividade cardíaca e a respiração.
A condição de Li Xia, que já conseguia se locomover em uma cadeira de rodas, piorou repentinamente em 2020, quando ele tinha 30 anos. Ele entrou em coma, ficou incontinente e tetraplégico.
“Fiquei arrasado”, lembra ele.
“Mas depois de alguns meses, me recompus e procurei coisas que tivessem significado.”
– “Cabeça pensante” –
Ele descobriu a hidroponia, um método de cultivo inovador onde os vegetais não crescem no solo, mas numa solução aquosa enriquecida com nutrientes essenciais.

Parcialmente automatizado, requer pouca mão de obra, permite um controle preciso das culturas e garante bons rendimentos.
“Cresci no campo, por isso sempre tive contato com as sementes, com a terra, com as hortaliças. Também adoro tecnologias digitais e programação. Percebi que poderia aliar as duas coisas”, afirma.
“Também disse a mim mesmo que era um nicho para o futuro. E que, se conseguisse, permitir-me-ia realizar um sonho, mas também ganhar dinheiro e melhorar as nossas condições de vida.”
Li Xia aprendeu sozinho programação de computadores e design de placas de circuito. Sua mãe e irmã o apoiam. Em 2022, mudam-se para esta casa modular.
É a mãe dele quem faz todas as tarefas manuais. Ele explica o que fazer e supervisiona suas ações nas estufas por videoconferência por meio de um smartphone.
“Ela é meus braços e minhas pernas, e eu sou sua cabeça pensante”, resume.
Ela cozinha, usa furadeiras e trituradoras, dosa fertilizantes, instala equipamentos, conecta cabos.
-Stephen Hawking-
Sem falar nos cuidados dispensados ao filho dia e noite, como a limpeza da cânula instalada na traqueia para retirada do muco.

“Não tenho tempo para respirar”, explica sua mãe, Wu Dimei. Mesmo com a ajuda da filha que vem regularmente dar banho no irmão, ela só dorme entre três e cinco horas por noite.
“Mas vale a pena”, enfatiza Wu, divorciada. “Pode não parecer, mas nossa família está muito feliz.”
O caso de Li Xia lembra o de outros pacientes com graves distúrbios neuromotores, como o do físico e cosmólogo britânico Stephen Hawking, acometido pela doença de Charcot, em cadeira de rodas e que só conseguia se expressar por meio de um sintetizador de voz.
Ou Jean-Dominique Bauby, ex-editor-chefe da revista francesa Elle, paralisado após um derrame e autor em 1997 do livro “O sino de mergulho e a borboleta” ditado pelo piscar do olho esquerdo – único movimento que ele ainda controlava.
O aipo de Li Xia é vendido a uma rede de supermercados local.
“Ainda não estamos a ter lucro” e “o meu sonho é expandir esta quinta, torná-la num negócio próspero, produzir mais e ganhar mais”, proclama Li Xia.
“A minha motivação é ver os nossos vegetais crescerem, serem colhidos, vendidos e vê-los chegar ao prato das pessoas.”