
A ONG Générations Futures alertou esta quarta-feira para os níveis de concentração na água potável de várias dezenas de milhares de habitantes dos Altos de França de um fungicida utilizado na agricultura, considerando-os demasiado elevados, segundo medições realizadas há mais de um ano.
Trata-se “de 17 unidades de distribuição de água potável (UDI) que abastecem um total de 46 municípios” em Pas-de-Calais, no Somme e no Norte, segundo a ONG.
“No total, mais de 83.000 pessoas foram abastecidas com água que não está em conformidade com o fluopiram durante vários meses, ou mesmo durante um ano para alguns municípios”, estima a Générations Futures num comunicado de imprensa.
No entanto, segundo a Agência Regional de Saúde de Hauts-de-France (ARS), contactada pela AFP, uma das UDIs não fornece água canalizada, pelo que seriam “30 municípios” de Nord e Pas-de-Calais os que estariam em causa.
O teor de fungicidas excede 0,1 µg/L, de acordo com medições oficiais compiladas e divulgadas pela Générations Futures num site de acesso gratuito, dansmoneau.fr.
Esta taxa ultrapassa o “limite de qualidade regulamentar”, sublinha a ONG, sendo que em dois municípios as quantidades medidas chegam mesmo a “mais de 10 vezes o limite de qualidade regulamentar”.
Isto não significa necessariamente que esta contaminação represente um risco para a saúde, lembra a ARS, porque o impacto na saúde do fluopiram, um “poluente emergente”, “não está estabelecido”.
“De acordo com a avaliação feita pela EFSA (Agência Europeia para a Segurança Alimentar, nota do Editor) em 2013, o fluopiram não apresentou qualquer potencial genotóxico, nem qualquer efeito na fertilidade, nem qualquer efeito teratogénico (susceptível de causar defeitos congénitos, nota do Editor) ou neurotoxicidade”, nota a ARS.
Também não é considerado um agente cancerígeno comprovado nesta fase. Ainda não foi definido um nível máximo na água (Vmax) deste fungicida, sublinha a ARS, que contactou a Agência Nacional de Segurança Sanitária (ANSES) para o estabelecer.
No entanto, a Générations Futures lembra que em caso de ausência de Vmax, a Direção Geral de Saúde (DGS) recomenda a restrição do consumo de água quando for ultrapassado o valor de 0,1 µg/L. No início de 2025, o Conselho Superior de Saúde Pública (HCSP) elevou este limite para 0,142 µg/L.
No entanto, segundo a ONG, este limite é ultrapassado “em 10 unidades de distribuição que abastecem 30 concelhos e 10.438 pessoas”.
A ARS diz ter comunicado estas medidas aos municípios e comunicado aos responsáveis pelas suas redes de água, no sentido de “encontrar e implementar soluções rápidas”, caso contrário serão tomadas “as restrições necessárias”.
O fluopiram, destinado a destruir fungos parasitas, está contido em muitos produtos comercializados na França para o cultivo de frutas, vegetais, cereais ou batatas.
A Générations Futures sublinha ainda que este fungicida “faz parte da família química PFAS” e “degrada-se lentamente em TFA”, um “poluente eterno” omnipresente no ambiente.
A ONG apela, por isso, às autoridades para que “reavaliem as autorizações dos produtos à base de fluopirame”.
Para Pauline Cervan, toxicologista da ONG, estas medidas constituem “mais uma ilustração das consequências do uso intensivo de pesticidas e da inacção das autoridades públicas” para proteger a água.
Ela também lamenta que “as técnicas em vigor” sejam “na maioria das vezes insuficientes para tratar pesticidas”.