O açaí é uma “fruta nacional” brasileira: ao proclamá-lo em lei, o Brasil tenta fazer valer seus direitos a esse popular “superalimento”, diante do apetite de empresas estrangeiras atraídas pelas riquezas biológicas da Amazônia.

O açaí é alimento básico na Amazônia há séculos, consumido em pasta grossa, acompanhado de peixe e farinha de mandioca.

A baga roxa profunda conquistou o mundo no início dos anos 2000, depois de ser reinventada como um sorvete doce, muitas vezes coberto com granola e frutas.

Vendedor de suco de açaí, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2026 (AFP - Pablo PORCIUNCULA)
Vendedor de suco de açaí, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2026 (AFP – Pablo PORCIUNCULA)

O seu segredo permanece o mesmo: o seu sabor mas também as suas propriedades ricas em antioxidantes.

Os princípios ativos do açaí despertaram rapidamente o interesse de empresas alimentícias e cosméticas de todo o mundo.

Um caso marcante citado durante debates parlamentares no Brasil diz respeito a uma empresa japonesa que registrou a marca “açaí” em 2003.

O Brasil levou quatro anos para derrubar essa decisão. Casos como este levaram à lei que declara o açaí uma “fruta nacional”, introduzida pela primeira vez em 2011 e finalmente aprovada em janeiro deste ano.

A medida ajuda a apresentar o açaí como um “produto autenticamente brasileiro” que gera renda para milhares de famílias amazônicas, explica o Ministério da Agricultura à AFP.

No entanto, os especialistas dizem que a lei é em grande parte simbólica e serve principalmente para destacar o desafio colocado pelo crescente interesse internacional em muitas frutas endémicas da Amazónia.

O Brasil está entre os países preocupados com a “biopirataria”, ou a utilização de recursos genéticos sem autorização ou repartição de benefícios.

A lei “ajuda a colocar o tema no topo da agenda”, afirma Bruno Kato, fundador da Horta da Terra, empresa que desenvolve e comercializa ingredientes amazônicos.

– Risco “enorme” –

Para Sheila de Souza Correa de Melo, especialista em propriedade intelectual da organização pública Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que atua na Amazônia, o texto é “principalmente simbólico” e visa uma “reivindicação cultural”.

Cupuaçus, frutas cremosas relacionadas ao cacau, em uma reserva indígena no estado do Amazonas, norte do Brasil, 27 de abril de 2019 (AFP - EVARISTO SA)
Cupuaçus, frutas cremosas relacionadas ao cacau, em uma reserva indígena no estado do Amazonas, norte do Brasil, 27 de abril de 2019 (AFP – EVARISTO SA)

O Brasil é um dos países com maior biodiversidade do mundo e uma grande variedade de seus frutos com propriedades únicas correm um risco “enorme” de serem utilizados em novos produtos desenvolvidos e patenteados no exterior, alerta Dona De Melo.

Ela cita o caso “emblemático” do cupuaçu, fruta cremosa aparentada com o cacau e utilizada em sobremesas e cosméticos.

A marca “cupuaçu” foi registrada por outra empresa japonesa no final da década de 1990, que exigia o pagamento de US$ 10 mil em royalties por qualquer produto que mencionasse esse nome no rótulo. Demorou duas décadas para cancelar esta marca.

Diversas patentes foram depositadas no exterior para usos especificamente desenvolvidos dos princípios ativos do açaí em alimentos e cosméticos, relata o especialista.

– “Regras claras” –

A recente lei mostra a necessidade de “regras claras que garantam a repartição equitativa dos benefícios”, avalia Ana Costa, vice-presidente de desenvolvimento sustentável da Natura. A gigante brasileira da cosmética ecologicamente responsável é conhecida pelo uso de ingredientes amazônicos como o açaí.

O Brasil é signatário do Protocolo de Nagoya de 2014, um tratado internacional sobre repartição de benefícios provenientes de recursos genéticos.

  (AFP/Arquivos - Pablo PORCIUNCULA)
(AFP/Arquivos – Pablo PORCIUNCULA)

O tratado enfrenta uma grande lacuna desde que os dados genéticos foram digitalizados: os investigadores podem agora simplesmente descarregar uma sequência de ADN e utilizá-la para desenvolver medicamentos ou produtos cosméticos, sem recolher fisicamente plantas ou sementes.

Para Melo, o principal desafio para o Brasil é que matérias-primas como a polpa de açaí são frequentemente exportadas para países que então realizam as pesquisas necessárias para criar produtos de alto valor agregado.

Para ele, o Brasil deveria focar em investir em pesquisa e desenvolvimento tecnológico na Amazônia para produzir riquezas localmente.

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