Sou cantora lírica – soprano – e ganho em média entre 1.700 e 3.000 euros líquidos por mês. Não venho de uma família de músicos – nesta indústria, é frequentemente o caso – mas sempre soube que queria fazer música. Desde os 6 anos eu disse a todos que seria cantora. Cresci na região de Paris: como não existia um grande conservatório no meu departamento nem aulas com horários flexíveis, comecei a ter aulas particulares de canto dos 14 aos 15 anos.

Venho da classe média “clássica”: meu pai, aposentado, era executivo da construção, minha mãe chegou da África com vinte e poucos anos, não tem formação universitária e sempre fez apenas biscates. O “acordo” com meus pais era: você faz um bacharelado geral e depois pode estudar o que quiser. Após o bacharelado científico, ingressei em um conservatório parisiense e, ao mesmo tempo, me formei em musicologia na Sorbonne. Na música nem todo mundo liga para diplomas, mas meus pais ficaram tranquilos com isso.

Aos 20 anos, entrei na seletiva escola de mestrado Notre-Dame de Paris na primeira tentativa através de concurso. Fiquei lá por três anos. Recebi meus primeiros comprimidos enquanto cantava durante os cultos. Quando você se forma, é raro ter intervalo direto. Tive muitas missas: há missas todos os dias em Notre-Dame. É muito mal pago – por exemplo, uma missa à segunda-feira pode custar 44 euros brutos -, mas somando-os consegui tornar-me num artista intermitente, estatuto que se obtém ao ter assinado pelo menos 43 honorários durante o ano, o que corresponde a 507 horas de trabalho.

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