Por ocasião da transmissão de “Misanthrope” na TF1, oferecemos a vocês um foco no final deste thriller febril, muito mais relevante do que parece!

Lançado em 2023, Misantropo é um thriller de intensidade febril, protagonizado por uma dupla sólida: Shailene Woodley e Ben Mendelsohn. Dirigido por Damián Szifron (Os Novos Selvagens), o filme foi muito bem recebido pela crítica e pelo público, mas infelizmente não obteve grande sucesso nos cinemas.

No entanto, esta história é conduzida com maestria e não tem motivos para se envergonhar dos clássicos do gênero, como O Silêncio dos Inocentes, Prisioneiros ou Sete, com os quais compartilha certos aspectos (relação mentor – aluno, atmosfera sombria e crepuscular, final chocante…).

Uma investigação cativante

Misanthrope segue Eleanor Falco (Shailene Woodley), uma policial de Baltimore com um passado atormentado e marcado por problemas de dependência. Este último é recrutado por uma equipe de agentes do FBI para ajudar a rastrear um atirador responsável pelo assassinato de vários foliões de Ano Novo.

Eleanor trabalha em estreita colaboração com o investigador principal do caso, o Agente Lammark (Ben Mendelsohn), mas a sua caçada humana é dificultada por numerosos obstáculos, incluindo pressão política, interferência burocrática, falta de comunicação entre agências, bem como fanáticos por armas que procuram explorar os assassinatos para seu próprio ganho.

A polícia local, entretanto, concentra-se num adolescente com atividades suspeitas na Internet, apesar das objeções de Lammark. Não só o jovem é inocente, mas a operação policial leva ao seu suicídio.

Tudo isso leva a um novo tiroteio em massa em um shopping center, deixando vários outros mortos. Após esse drama, Lammark é demitido e Eleanor suspensa. Só depois de serem afastados é que a dupla finalmente consegue rastrear o verdadeiro assassino.

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Um resultado chocante

No final, graças a evidências forenses, técnicas de criação de perfis e interrogatórios, Eleanor e Lammark começam a suspeitar de Dean Possey, interpretado por um aterrorizante Ralph Ineson. Eles vão para a casa de sua mãe, mas a Sra. Possey (Rosemary Dunsmore) afirma que não o vê há anos.

Eleanor então percebe um galpão atrás da casa e entende que a Sra. Possey está mentindo para ela. Dean está parado na cabana, com a arma apontada para Lammark. Este último é abatido a sangue frio. Horrorizada, Eleanor pede à mãe de Dean que tente convencê-lo a sair, dando-lhe seu telefone e arma para mostrar que ela não representa nenhuma ameaça.

Este é um erro monumental, porque a Sra. Possey, uma vez fora, aponta a arma para si mesma. Esta nova reviravolta neste final insanamente intenso aumenta a tensão no espectador. Dean então aparece e entra na casa. Ele explica a Eleanor que seu desejo de matar não está ligado a uma agenda pessoal ou a qualquer ofensa, mas sim advém de uma desconfiança misantrópica em relação à sociedade moderna.

Ele então pede que ela atire nele quando ele adormecer ao lado de sua falecida mãe. Mas a polícia chega e Dean entra em pânico. Ele obriga Eleanor a se refugiar no porão do galpão, onde plantou bombas. Quando a polícia cerca o local, ele provoca uma explosão. No caos, Eleanor escapa e Dean corre para a floresta, onde é morto a tiros pela polícia.

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Compre silêncio

A cena final mostra Eleanor confrontando o prefeito. Ele recebe uma oferta de emprego no FBI em troca de seu silêncio sobre como o caso foi tratado. Ela concorda em ser levada de volta para dentro de uma máquina que ela criticou, com a condição de que Lammark seja homenageado e sua pensão seja devolvida ao marido.

Pouco antes dos créditos rolarem, Eleanor caminha em direção à sede do FBI enquanto a narração de Lammark soa: “Se pegarmos esse cara, tudo isso desaparecerá e poderemos finalmente fazer o trabalho para o qual fomos criados.”

Este final ilustra perfeitamente o problema das instituições, como a polícia; este último fica preso num emaranhado de procedimentos, constrangimentos administrativos e jogos de poder internos, a tal ponto que a própria eficácia da investigação fica comprometida, gerando consequências fatais.

Lammark é a demonstração perfeita disso, no papel deste policial experiente preso em todos esses fardos que o impedem de fazer seu trabalho corretamente. Eleanor, a jovem policial, tenta ao máximo mudar as coisas, mas inevitavelmente acabará entrando na linha.

Um sistema bloqueado?

Em última análise, este resultado é uma análise chocante e impactante do sistema, que não procura nem reconhecer as suas falhas nem transformar-se. Esse final nos diz que ele se contenta em esconder seus fracassos, enquanto os poderosos reescrevem a história e compram o silêncio com promoções. Assim, raramente quem alcança o poder é quem o exerce com responsabilidade ou eficácia.

“O poder é uma luta entre aqueles que o merecem e aqueles que o adoram. É uma luta perpétua. Ainda não posso dizer que estamos a vencer.”diz Lammark a Eleanor no filme, bem consciente dos problemas que têm de enfrentar e que provavelmente nunca serão resolvidos.

Em última análise, Misantropo é muito mais do que um thriller comum; é mais relevante e inteligente do que parece, questionando verdadeiramente as nossas instituições, apontando o dedo indicador acusatório a uma sociedade paradoxalmente misantrópica, cansada da sua burocracia e dos seus jogos de poder.

Ao contrário de muitos thrillers do gênero, a conclusão não termina com um triunfo claro, apesar da neutralização do assassino. Deixa o público a questionar o custo humano e sistémico deste tipo de investigação, sublinhando que a resolução de um caso não resolve necessariamente os problemas profundos que o criaram. Assim, acaba por ser um dos melhores thrillers dos últimos 10 anos.

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