
Os incêndios no sul do Chile, que deixaram pelo menos 19 mortos, permaneceram fora de controle na segunda-feira, apesar de uma relativa calmaria, depois de terem devastado bairros inteiros com ruas agora repletas de carros carbonizados e casas em cinzas.
“Os incêndios mais importantes não estão sob controle”, declarou em Santiago a diretora do Serviço Nacional de Prevenção e Resposta a Desastres (Senapred), Alicia Cebrián.
Os incêndios começaram no sábado, em pleno verão austral, alimentados por altas temperaturas e ventos fortes de mais de 70 km/h, nas regiões de Ñuble e Biobio, cerca de 500 km ao sul da capital.
As áreas mais afetadas são as localidades de Penco e Lirquén, próximas à cidade de Concepción.
As estradas ao redor de Lirquén, uma pequena cidade portuária de 20 mil habitantes, estavam saturadas na segunda-feira com pessoas tentando retornar aos seus bairros danificados.
Os soldados destacados na área regularam o tráfego em torno do que restava de suas casas.
O último relatório mostra pelo menos 19 mortes e mais de 50 mil pessoas evacuadas, bem como 1.500 vítimas, cerca de 325 casas destruídas e mais de 1.000 casas danificadas.
Mais de 25 mil hectares foram devastados pelas chamas, enquanto 14 focos permaneceram ativos. Mais de 3.500 bombeiros foram mobilizados.
“Foi horrível. Tentei molhar a casa o máximo possível, mas vi que as chamas vinham em direção ao meu bairro. Levei meu filho, meu irmão levou meu cachorro e fugimos”, disse à AFP Yagora Vasquez, morador de Lirquén.
Ela explica que tentou fugir das chamas de carro, mas dezenas de outros veículos faziam o mesmo e o caos os impediu de avançar.
“Tivemos que descer porque as chamas estavam bem perto de nós e corremos para evitar o fogo e as brasas que caíam do céu”, lembra ela.
– “Onda de fogo” –
O medo de que alguém se apropriasse de suas terras a levou a montar uma barraca no meio das brasas ainda acesas. “É melhor avisar e ficar aqui”, explica a irmã, Constanza Vásquez, que veio apoiá-la.
A região foi atingida em 2010 por um terremoto de magnitude 8,8 seguido por um tsunami que deixou 530 mortos.
Desta vez sofremos uma “onda de fogo, não de água”, lamenta Mareli Torres, 53 anos.
Segundo o presidente Gabriel Boric, que estava no local desde a véspera para supervisionar as operações, a situação foi mais favorável do que se temia durante a noite.
No entanto, disse temer, na rede social X, um agravamento da situação. “As condições meteorológicas não são boas, por isso é possível que as casas reacendam” durante o dia, explicou.
Temperaturas em torno de 30 graus Celsius são esperadas durante o dia.
As duas regiões afetadas foram colocadas em estado de calamidade no domingo, permitindo o envio do exército. Foi imposto toque de recolher noturno nas localidades mais afetadas.
Durante o dia, o Presidente Boric se reunirá com o Presidente eleito José Antonio Kast, que tomará posse no dia 11 de março.
Nos últimos anos, os incêndios florestais afetaram fortemente o Chile, especialmente na zona centro-sul.
De acordo com o Centro Chileno de Ciência e Resiliência Climática, o aumento das temperaturas e a seca persistente durante mais de uma década facilitaram a propagação dos incêndios, com o sul do país a registar temperaturas “sem precedentes” de até 41 graus Celsius nos últimos anos.
A Patagónia argentina também foi atingida na semana passada por violentos incêndios florestais, que devastaram mais de 15 mil hectares, segundo as autoridades locais.