A utilização das redes sociais prejudica a saúde mental dos adolescentes, particularmente das raparigas, estima a agência francesa de segurança sanitária, numa altura em que estão em preparação vários textos que pretendem proibi-las para menores de 15 anos.

Se não são a única causa da deterioração da saúde mental dos adolescentes, os efeitos negativos das redes sociais, muito recentemente proibidas para menores de 16 anos na Austrália, são “numerosos” e “documentados”, afirma a ANSES num parecer publicado terça-feira, fruto de cinco anos de trabalho de um comité multidisciplinar de especialistas.

Tal como recomendado em setembro pela comissão parlamentar de inquérito ao TikTok, a proibição das redes sociais para menores de 15 anos é atualmente objeto de dois atos legislativos: um iniciado pelo presidente Emmanuel Macron, outro pelo grupo Renascença de Gabriel Attal e outros no Senado.

A ANSES recomenda “atuar na fonte” para que os menores só acessem “redes sociais pensadas e configuradas para proteger a sua saúde”.

Isto implica que as plataformas modifiquem algoritmos de personalização de conteúdos, técnicas de interface persuasivas e configurações padrão, sublinha a agência, cujo trabalho informa as decisões públicas.

“Este estudo dá argumentos científicos ao debate nas redes sociais nos últimos anos: baseia-se em 1.000 estudos que foram dissecados” e documentam “os efeitos na saúde”, afirmou Olivia Roth-Delgado, coordenadora da perícia, em conferência de imprensa.

O desafio é criar um quadro de governação “para responder aos desafios”, insistiu Olivier Merckel, chefe da unidade de Avaliação de riscos ligados a agentes físicos, sublinhando que estabelecer “medidas regulatórias e ações de controlo robustas” para proteger a saúde dos menores “é da responsabilidade das plataformas”.

Estes devem implementar “sistemas fiáveis ​​para verificação da idade e recolha de consentimento dos pais”, a fim de cumprir os regulamentos europeus sobre serviços digitais (DSA) e o regulamento geral de protecção de dados (RGPD). Este último prevê a possibilidade de registo a partir dos 13 anos, com validação parental entre os 13 e os 15 anos.

– “Meninas mais impactadas” –

Para a agência de saúde, os “sistemas de captação de atenção” das plataformas “exploram vulnerabilidades específicas” dos adolescentes (tendência a correr riscos, comparação social, importância do julgamento dos pares) enquanto não possuem as “capacidades de regulação emocional e comportamental” dos adultos.

O relatório da comissão parlamentar de inquérito sobre os efeitos psicológicos da plataforma de vídeos curtos TikTok em menores apresentado à Assembleia Nacional, em 11 de setembro de 2025, em Paris (AFP/Arquivos - Bertrand GUAY)
O relatório da comissão parlamentar de inquérito sobre os efeitos psicológicos da plataforma de vídeos curtos TikTok em menores apresentado à Assembleia Nacional, em 11 de setembro de 2025, em Paris (AFP/Arquivos – Bertrand GUAY)

As redes sociais consultadas através de um smartphone, nas quais metade dos jovens entre os 12 e os 17 anos passam duas a cinco horas por dia, são uma “caixa de ressonância sem precedentes” que reforça estereótipos, destaca comportamentos de risco e promove o assédio cibernético.

Isto resulta de um modelo económico de “maximização do tempo de utilização” com fins lucrativos e de “estratégias de captação de atenção” (rolagem infinita de conteúdos, conteúdos ultrapersonalizados, etc.) que incentivam os adolescentes a permanecerem nas redes sociais em detrimento do sono. Isto induz sonolência, irritabilidade, tristeza e “promove sintomas depressivos”, lembra a ANSES.

Além disso, o conteúdo veicula “ideais normativos” inatingíveis, internalizados pelas meninas, por meio de imagens retocadas, que podem “gerar autodesvalorização”, “terreno fértil” para sintomas depressivos e transtornos alimentares.

Os algoritmos de personalização de conteúdos expõem determinados menores a publicações que incitam ao suicídio, à automutilação ou a comportamentos de risco (desafios perigosos, consumo de drogas, álcool, tabaco, cannabis, etc.) e à violência cibernética (insultos, boatos, exclusão, chantagem, imagens íntimas distribuídas sem consentimento), amplificada pelo anonimato e pela facilidade de disseminação de ameaças.

Mais utilizadores de redes sociais do que rapazes, mais objectos de “pressão social ligada a estereótipos de género” e mais ciberassediadas, as raparigas são “mais impactadas”, nota a ANSES, tal como as pessoas LGBTQI e os jovens que já sofrem de perturbações psiquiátricas.

Para a agência, conteúdos prejudiciais à saúde (violentos, pornográficos, de ódio, assédio, comportamentos de risco, jogos de azar, dietas extremas etc.) devem ser proibidos.

Há urgência, enquanto a IA redobra o perigo: “Perda de pensamento crítico, geração de estereótipos ou conteúdos perigosos…”.

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