Donald Trump lançou uma nova acusação contra a diplomacia climática na quarta-feira, ordenando a retirada dos Estados Unidos de um tratado e do comité de referência científica sobre o clima, organizações entre dezenas identificadas por Washington como já não servindo os interesses americanos.
O decreto assinado pelo presidente norte-americano ordena a retirada dos Estados Unidos de um total de 66 organizações, cerca de metade das quais estão ligadas à ONU, anunciou a Casa Branca.
Entre eles, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNCCC), o tratado fundador de todos os outros acordos climáticos internacionais, concluído em 1992 durante a Cimeira da Terra no Rio.
Foi no âmbito da UNCAC que foi assinado o Acordo de Paris de 2015, do qual Donald Trump bateu a porta pela segunda vez ao regressar à Casa Branca há um ano.
Durante o seu primeiro mandato, também abandonou o acordo de Paris, mas não a UNCAC, permitindo aos Estados Unidos continuar a participar nas conferências anuais sobre o clima.
Esta retirada adicional “é um grande golpe para a ação climática global, quebrando consensos duramente conquistados e representando o maior desafio aos esforços climáticos desde a adoção do acordo de Paris”, disse à AFP o analista Li Shuo, do Asia Society Policy Institute.
É “um novo sinal de que esta administração autoritária e anticientífica está determinada a sacrificar o bem-estar da população e a desestabilizar a cooperação internacional”, lamentou também à AFP Rachel Cleetus, da organização Union of Concerned Scientists.
Este anúncio também pode representar um desafio jurídico, enquanto a Constituição americana, que permite ao presidente aderir a um tratado após uma votação de dois terços dos senadores, nada diz sobre a sua saída.
Se Donald Trump tivesse retirado os Estados Unidos do acordo de Paris durante o seu primeiro mandato, antes de Joe Biden regressar a ele, “sair da UNCAC é radicalmente diferente”, avalia Jean Su, advogado do Centro para a Diversidade Biológica. “Acreditamos que é ilegal para o presidente abandonar unilateralmente um tratado que exige uma votação de dois terços do Senado”, disse ela à AFP, citando “opções legais” para provar isso.
O decreto ordena ainda a saída dos Estados Unidos do comité de peritos científicos sobre o clima (IPCC) da ONU, referência na ciência climática, bem como de outras organizações ligadas à protecção do planeta, como a Agência Internacional de Energias Renováveis, a União Internacional para a Conservação da Natureza, ou mesmo a ONU-Água.
– “Ideologia progressista” –
Em Setembro, do pódio da Assembleia Geral da ONU, Donald Trump provocou fortes reacções ao atacar abertamente a ciência climática, chamando o aquecimento global de “a maior fraude da nossa história” e elogiando o carvão “limpo e magnífico”.
O clima não é o único alvo da administração Trump que ataca outros princípios defendidos pelos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU destinados a melhorar o futuro da humanidade, como a igualdade de género. O decreto publicado quarta-feira ordena que os Estados Unidos se retirem do Fundo de População das Nações Unidas, especializado em saúde materno-infantil, e da ONU-Mulheres.
Também na lista está a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD).

Num comunicado, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, acusou as organizações visadas de promoverem uma “ideologia progressista”, denunciando em particular “campanhas pela ‘igualdade de género’ e pela ortodoxia climática”.
Desde o seu regresso à Casa Branca, Donald Trump implementou a sua visão de “América em Primeiro Lugar”.
Além do acordo de Paris, ele decidiu, nomeadamente, retirar mais uma vez os Estados Unidos da UNESCO (organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura).
Ele também bateu a porta na Organização Mundial da Saúde.
O presidente republicano também cortou significativamente a ajuda americana ao exterior, cortando os orçamentos de numerosas agências da ONU forçadas a reduzir as suas actividades no terreno, como o Alto Comissariado para os Refugiados ou o Programa Alimentar Mundial.
De forma mais geral, ele lançou ataques contra a ONU, segundo ele, “muito longe de realizar o seu potencial”.