Águas azul-turquesa, praias paradisíacas, florestas densas… Como um Eldorado ao largo da costa da Guiné-Bissau, o arquipélago dos Bijagós exibe o seu encanto inegável. Mas o local, dotado de uma biodiversidade excepcional, e os seus habitantes estão hoje ameaçados pelo avanço do mar.
Reconhecido em meados de julho pela UNESCO como patrimônio mundial, o arquipélago abriga colônias de tartarugas marinhas, hipopótamos, tubarões e raias, peixes-boi e cerca de 850 mil aves migratórias.
Também abriga locais sagrados e de pesca artesanal essenciais para seus cerca de 25 mil habitantes.

Suas 88 ilhas e ilhotas espalhadas por uma área de mais de 10.000 km2 também reúnem ecossistemas muito diversos: savana, palmeirais, praias, manguezais, florestas tropicais. Apenas cerca de vinte são permanentemente habitados.
O aumento dos níveis das águas e a erosão costeira são acentuados pela ausência de uma verdadeira política de conservação neste país da África Ocidental, minado pela instabilidade política.
“Todos os anos perdemos até 2 metros de praia”, descreve António Honória João, assistente administrativo e organizador comunitário do Instituto da Biodiversidade e Áreas Marinhas Protegidas (Ibap), uma ONG que luta pela conservação do arquipélago.

Fica em Bubaque, uma das ilhas mais povoadas do arquipélago com cerca de 5.000 habitantes e desliza pelo pouco espaço que resta ao longo da costa, obstruída por destroços de canoas, rochas e troços de paredes desabadas.
“Há 50 anos a praia era muito larga. Hoje, tudo é invadido pela água e continua”, afirma, julgando que a ilha, acessível principalmente por barco, está “em perigo”.
– “Temer” –
Adriano Carlos Souarez dirige um acampamento turístico à beira-mar desde 2020.

Para proteger o edifício das repetidas investidas das ondas, ele ergueu, com pneus, uma gigantesca barragem de quase 10 metros de altura.
Apesar de tudo, parte das fundações está danificada e uma gigante queijeira que serve de barragem também corre o risco de ser desarraigada.
“Quando comprei este terreno, ficava a 5 ou 6 metros do mar. Mas a distância diminuiu”, diz Souarez, que diz ter “medo de ver a sua casa cair”.
No pequeno mercado de Bubaque, onde diariamente se movimenta muita gente, a fachada também traz as marcas do mar.

“Antes não era assim”, lembra Joia Mendes Cno, 45 anos, que descreve um “mar que estava muito longe”. Esta vendedora de legumes está triste porque “vê a água avançando todos os dias sem poder fazer nada”.
De acordo com um relatório das autoridades intitulado “Plano Estratégico da Guiné-Bissau 2025”, a linha costeira recua cerca de 5 a 7 metros por ano, causando a perda de mangais e ameaçando o estilo de vida de pessoas e animais.
– “Apoio insuficiente”-
Na raiz do problema, António Honória João cita o aquecimento global e o escoamento das águas pluviais que provocam deslizamentos de terra.

Mas denuncia também um factor humano com a urbanização galopante da ilha ou o despejo de resíduos na praia que fragiliza o litoral face ao avanço do mar.
Se vários outros locais também forem afectados, a extensão do fenómeno varia de uma ilha para outra, sublinha João.
Ele explica que devido à sua posição, à sua vegetação mais densa ou à presença de numerosas rochas, certas ilhas são menos afetadas.
Segundo a UNESCO, existe uma “forte probabilidade” de que as alterações climáticas conduzam a “riscos potenciais de erosão e sedimentação no arquipélago”.
O Painel de Peritos sobre Alterações Climáticas (IPCC) alerta há muito tempo para o aumento do nível dos oceanos associado ao aquecimento global e aos riscos para os habitantes das zonas costeiras, mas também para os riscos do aumento da perda de biodiversidade e da extinção de certas espécies.

Perante esta situação, o Ibap está a tentar ao máximo identificar os locais afectados, plantar árvores ou sensibilizar as populações.
Mas o problema permanece, lamenta um responsável de uma ONG sob condição de anonimato. “Recebemos apoios de algumas organizações internacionais mas é insuficiente”, afirmou, apelando ao Estado para que invista mais na preservação do arquipélago.