Águas azul-turquesa, praias paradisíacas, florestas densas… Como um Eldorado ao largo da costa da Guiné-Bissau, o arquipélago dos Bijagós exibe o seu encanto inegável. Mas o local, dotado de uma biodiversidade excepcional, e os seus habitantes estão hoje ameaçados pelo avanço do mar.

Reconhecido em meados de julho pela UNESCO como patrimônio mundial, o arquipélago abriga colônias de tartarugas marinhas, hipopótamos, tubarões e raias, peixes-boi e cerca de 850 mil aves migratórias.

Também abriga locais sagrados e de pesca artesanal essenciais para seus cerca de 25 mil habitantes.

Edifício danificado pela erosão costeira na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP - PATRICK MEINHARDT)
Edifício danificado pela erosão costeira na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP – PATRICK MEINHARDT)

Suas 88 ilhas e ilhotas espalhadas por uma área de mais de 10.000 km2 também reúnem ecossistemas muito diversos: savana, palmeirais, praias, manguezais, florestas tropicais. Apenas cerca de vinte são permanentemente habitados.

O aumento dos níveis das águas e a erosão costeira são acentuados pela ausência de uma verdadeira política de conservação neste país da África Ocidental, minado pela instabilidade política.

“Todos os anos perdemos até 2 metros de praia”, descreve António Honória João, assistente administrativo e organizador comunitário do Instituto da Biodiversidade e Áreas Marinhas Protegidas (Ibap), uma ONG que luta pela conservação do arquipélago.

Vista aérea da ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP - Patrick MEINHARDT)
Vista aérea da ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP – Patrick MEINHARDT)

Fica em Bubaque, uma das ilhas mais povoadas do arquipélago com cerca de 5.000 habitantes e desliza pelo pouco espaço que resta ao longo da costa, obstruída por destroços de canoas, rochas e troços de paredes desabadas.

“Há 50 anos a praia era muito larga. Hoje, tudo é invadido pela água e continua”, afirma, julgando que a ilha, acessível principalmente por barco, está “em perigo”.

– “Temer” –

Adriano Carlos Souarez dirige um acampamento turístico à beira-mar desde 2020.

Casas na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP - PATRICK MEINHARDT)
Casas na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP – PATRICK MEINHARDT)

Para proteger o edifício das repetidas investidas das ondas, ele ergueu, com pneus, uma gigantesca barragem de quase 10 metros de altura.

Apesar de tudo, parte das fundações está danificada e uma gigante queijeira que serve de barragem também corre o risco de ser desarraigada.

“Quando comprei este terreno, ficava a 5 ou 6 metros do mar. Mas a distância diminuiu”, diz Souarez, que diz ter “medo de ver a sua casa cair”.

No pequeno mercado de Bubaque, onde diariamente se movimenta muita gente, a fachada também traz as marcas do mar.

Uma banca de peixe na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, a 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP - PATRICK MEINHARDT)
Uma banca de peixe na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, a 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP – PATRICK MEINHARDT)

“Antes não era assim”, lembra Joia Mendes Cno, 45 anos, que descreve um “mar que estava muito longe”. Esta vendedora de legumes está triste porque “vê a água avançando todos os dias sem poder fazer nada”.

De acordo com um relatório das autoridades intitulado “Plano Estratégico da Guiné-Bissau 2025”, a linha costeira recua cerca de 5 a 7 metros por ano, causando a perda de mangais e ameaçando o estilo de vida de pessoas e animais.

– “Apoio insuficiente”-

Na raiz do problema, António Honória João cita o aquecimento global e o escoamento das águas pluviais que provocam deslizamentos de terra.

Uma área danificada pelos efeitos da erosão costeira na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP - PATRICK MEINHARDT)
Uma área danificada pelos efeitos da erosão costeira na ilha de Bubaque, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP – PATRICK MEINHARDT)

Mas denuncia também um factor humano com a urbanização galopante da ilha ou o despejo de resíduos na praia que fragiliza o litoral face ao avanço do mar.

Se vários outros locais também forem afectados, a extensão do fenómeno varia de uma ilha para outra, sublinha João.

Ele explica que devido à sua posição, à sua vegetação mais densa ou à presença de numerosas rochas, certas ilhas são menos afetadas.

Segundo a UNESCO, existe uma “forte probabilidade” de que as alterações climáticas conduzam a “riscos potenciais de erosão e sedimentação no arquipélago”.

O Painel de Peritos sobre Alterações Climáticas (IPCC) alerta há muito tempo para o aumento do nível dos oceanos associado ao aquecimento global e aos riscos para os habitantes das zonas costeiras, mas também para os riscos do aumento da perda de biodiversidade e da extinção de certas espécies.

Vista aérea da ilha de Rubane, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP - Patrick MEINHARDT)
Vista aérea da ilha de Rubane, no arquipélago dos Bijagós, em 1 de dezembro de 2025 na Guiné-Bissau (AFP – Patrick MEINHARDT)

Perante esta situação, o Ibap está a tentar ao máximo identificar os locais afectados, plantar árvores ou sensibilizar as populações.

Mas o problema permanece, lamenta um responsável de uma ONG sob condição de anonimato. “Recebemos apoios de algumas organizações internacionais mas é insuficiente”, afirmou, apelando ao Estado para que invista mais na preservação do arquipélago.

Fonte

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *