Num mundo onde a tecnologia é omnipresente, surge um paradoxo surpreendente: as gerações mais jovens, embora nascidas na era digital, lutam para dominar competências informáticas básicas. Esta observação, colocada em luz por professores e investigadores no final de 2023, revela uma realidade preocupante que desafia a nossa perceção de “nativos digitais”. À medida que os smartphones reinam supremos na vida quotidiana dos adolescentes, a sua capacidade de utilizar um computador para tarefas simples está a diminuir, levantando preocupações sobre a sua futura adaptabilidade profissional.
O paradoxo da geração smartphone
Anne Cordier, investigadora em ciências da informação e da comunicação, notou um declínio alarmante nas competências informáticas entre os alunos desde o primeiro ano até ao ensino secundário. Este fenómeno, longe de ser isolado, é corroborado por Cécile Cathelin, professora de literatura e formadora em usos digitais. Este último relata que mesmo ações básicas como abrir um documento do Word representam problemas para muitos estudantes do ensino médio.
O período de confinamento ligado a COVID-19 destacaram essas lacunas, revelando o despreparo dos alunos para o ensino a distância. Yasmine Buono, especialista em educação digital, desafia a ideia preconcebida de que o domínio das redes sociais e dos videojogos equivale a competências gerais em TI.
O smartphone parece ser o principal suspeito disto equação. Oferecido desde muito cedo, promove o uso recreativo da tecnologia digital em detrimento das competências de escritório e profissionais. Esta onipresença do smartphone cria uma lacuna entre o uso intuitivo de aplicativos móveis e o domínio mais complexo de software de computador.

A observação alarmante dos professores: devemos transformar estes jovens utilizadores passivos da tecnologia em actores competentes e críticos no mundo digital. © skynesher, iStock
Desigualdade digital: um desafio social
O acesso desigual às tecnologias acentua as disparidades entre os estudantes. Anne Cordier sublinha que as crianças oriundas da classe trabalhadora são particularmente afetadas por este fenómeno. A crise sanitária pôs em evidência esta exclusão digital, com os computadores a tornarem-se essenciais para o ensino à distância.
Paradoxalmente, Cécile Cathelin observa que, mesmo em escolas secundárias privadas onde se poderia esperar uma melhor aculturação digital, as competências dos alunos não são necessariamente superiores. Ela observa que os pais, incluindo aqueles de categorias socioprofissionais mais elevadas, raramente compartilham seus conhecimentos de informática com os filhos.
Esta situação levanta questões sobre a transmissão competências digitais intergeracionais e destaca a necessidade de uma abordagem educativa mais sistemática.
Comunicação e habilidades digitais
Para além das competências técnicas, Yasmine Buono centra-se nos desafios ligados à comunicação digital. Os estudantes, habituados a trocas informais sobre redes sociaismuitas vezes têm dificuldade em adotar um tom profissional nas suas comunicações eletrónicas. Esta lacuna manifesta-se em dificuldades em:
- escreva um e-mail formal;
- use expressões educadas apropriadas;
- estruturar uma mensagem de forma coerente.
Para remediar estes deficiênciasBuono recomenda aprender boas práticas de comunicação digital, adaptadas a diferentes contextos profissionais e acadêmicos.
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Habilidade |
Nível observado |
Impacto profissional |
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Uso de software de escritório |
Fraco |
Aluno |
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Comunicação formal por e-mail |
MÉDIA |
Aluno |
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Domínio das redes sociais |
Aluno |
MÉDIA |
Rumo a uma reforma da educação digital
Diante desses desafios, diversas soluções são propostas. Cécile Cathelin, através da sua plataforma Educatee, sugere a intervenção de profissionais digitais nos estabelecimentos de ensino. Esta abordagem visa fornecer conhecimentos práticos e atualizados aos alunos.
Anne Cordier, por sua vez, defende a reintegração do ensino de noções básicas de informática no currículo escolar. Ela destaca a importância de:
- Fornecer equipamentos adequados nas escolas.
- Integre a computação à rotina diária da sala de aula.
- Formar professores em competências digitais.
Estas medidas visam colmatar a lacuna tecnológica e preparar eficazmente as gerações mais jovens para as exigências do mundo profissional moderno. O desafio é elevado: envolve transformar utilizadores passivos de tecnologia em intervenientes competentes e críticos no mundo digital.
O domínio das ferramentas informáticas está a revelar-se crucial para o futuro profissional e cívico das gerações mais jovens, exigindo uma revisão urgente da nossa abordagem à educação digital.