Subsidiar o “Obamacare” apesar da sua franca hostilidade a este programa? Ou deixar explodir os custos do seguro de saúde para milhões de americanos? Donald Trump e os republicanos enfrentam um dilema difícil que expõe as suas divisões e que poderá custar-lhes caro nas eleições legislativas intercalares do próximo mês de Novembro.

No centro do debate está a expiração, no final de Dezembro, da ajuda financeira que hoje permite a mais de 20 milhões de americanos pagar a cobertura de saúde através do programa público “Obamacare”.

Para os líderes republicanos no Congresso, é bastante simples: não devemos absolutamente continuar a subsidiar este sistema promulgado em 2010 sob Barack Obama, que dizem estar infestado de fraudes.

Um programa emblemático do mandato do presidente democrata, o “Obamacare” permitiu que milhões de americanos obtivessem cobertura de saúde pela primeira vez. Mas tem sido implacavelmente contestado desde o seu início pela direita americana, que se opõe a tal intervenção por parte das autoridades públicas no mercado de seguros de saúde privados.

Está, portanto, fora de questão que os principais líderes republicanos apoiem uma extensão de três anos desta ajuda financeira, tal como proposto pelos Democratas.

Mas uma margem do partido não vê as coisas dessa forma.

– Pressão –

Na Câmara dos Representantes, mais de vinte membros da maioria desafiaram o seu líder Mike Johnson e apoiaram várias iniciativas democratas para alargar os subsídios.

Na quinta-feira, quatro senadores republicanos recusaram-se a seguir as instruções de voto e apoiaram um texto da oposição, que ainda assim fracassou.

A cúpula do Capitólio em Washington, sede do Congresso dos EUA, 2 de dezembro de 2025 (AFP - SAUL LOEB)
A cúpula do Capitólio em Washington, sede do Congresso dos EUA, 2 de dezembro de 2025 (AFP – SAUL LOEB)

Na mesma noite, Donald Trump declarou que estava pronto para trabalhar com os democratas para encontrar uma solução. Um raro gesto de abertura para o bilionário republicano, que neste momento não assumiu uma posição clara.

Contudo, a pressão está a aumentar: se o Congresso não adoptar qualquer texto antes de 31 de Dezembro, os custos do seguro de saúde mais do que duplicarão para aproximadamente 22 milhões de americanos da classe média e trabalhadora que beneficiam deste programa de ajuda.

Uma pessoa que pagasse o custo médio anual de 888 dólares em 2025 teria de pagar 1.906 dólares em 2026, de acordo com uma estimativa do think tank KFF.

E isto enquanto os americanos já enfrentam um dos sistemas de saúde mais caros do mundo, gastando em média mais do dobro do que noutros países ricos, segundo dados da OCDE.

– “Encontre um compromisso” –

A perspectiva de contas ainda mais elevadas para milhões de famílias a partir de Janeiro de 2026 faz soar o alarme à direita, menos de um ano antes das eleições legislativas intercalares, quando o partido de Donald Trump tentará preservar a sua maioria no Congresso.

O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, dá entrevista coletiva sobre subsídios para programa de seguro saúde
O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, dá entrevista coletiva sobre subsídios ao programa de seguro saúde “Obamacare”, no Capitólio, em Washington, em 11 de dezembro de 2025 (AFP – SAUL LOEB)

Do lado oposto, a oposição está a afiar as suas armas. Uma explosão nos custos dos seguros de saúde constituiria um argumento de escolha para os Democratas, que já decidiram centrar a sua campanha contra Donald Trump e os Republicanos em torno do custo de vida, num contexto de inflação persistente.

A hierarquia do Partido Republicano apresenta agora o seu próprio projeto de lei, que poderá ser submetido a votação na próxima semana. Mas o texto não inclui uma extensão dos subsídios e tem poucas hipóteses de ser adoptado.

O líder do grupo democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, disse na sexta-feira que estava aberto ao diálogo para “encontrar um compromisso”.

“Mas os republicanos continuam a seguir uma abordagem intransigente, que não os levou a lado nenhum este ano”, lamentou.

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